Mãe de Emanuel e Emanuelle saiu do Brasil após absolvição de Kátia Vargas; “me afastei”

A sentença nem chegou a ser comunicada pela juíza da 1ª Vara do Tribunal do Júri, Gelzi Maria Almeida de Souza, quando Marinúbia Gomes Barbosa, de 49 anos, subiu em uma das cadeiras que compõe as 432 vagas no plenário do Fórum Ruy Barbosa, para contar ao público que acompanhou os dois dias de julgamento, a decisão dos jurados. Em 6 de dezembro de 2017, por quatro votos a três, a acusada de ter provocado a morte dos seus dois filhos, a médica oftalmologista Kátia Vargas Leal Pereira, de 50, havia sido inocentada.

E quem achou que aquele tinha sido o último grito por justiça pela morte de Emanuel e Emanuelle, de 21 e 23 anos, se enganou. Marinúbia recuperou o fôlego viajando para fora do país, graças à contribuição de familiares e amigos.

Na última quarta-feira (6/6), Marinúbia comentou, pela primeira vez, todos os pontos do júri popular. Nesta quinta (7/6), ela descreve como foram esses seis meses desde a fatídica decisão que manteve o seu peito inquieto, atormentado pelo sentimento dos que se sentem injustiçados.

Refugiada na casa de alguns conhecidos no exterior, em destino que preferiu não divulgar, Marinúbia pôde se distanciar por alguns dias do sentimento de impunidade, mas não do desejo por justiça. “Me afastei um pouco de tudo na tentativa de me recuperar emocionalmente. Na verdade, a gente não recupera nunca, mas eu tentei não ouvir mais falar desse assunto, descansar um pouco. Sempre concentrada e com muita oração. Antes, eu buscava esse descanso na realização da justiça no júri popular. Então, como aconteceu aquele resultado triste, precisei me afastar um pouco”, contou.

Desde que voltou ao Brasil, aguarda ansiosa pelo parecer favorável ao pedido de anulação do júri e marcação de uma nova audiência, também em caráter popular. O pedido foi aceito pela procuradora de Justiça Criminal, Maria Augusta Almeida Cidreira Reis, e agora está nas mãos de uma turma de quatro desembargadores do Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA).

Nos seis meses que sucederam o julgamento, também retornou ao trabalho e tem estudado nas horas vagas, tudo para se manter ocupada. “Além do trabalho, estudo quando estou em casa e, desde a morte dos meus filhos, eu faço de tudo para ficar bem. Todos os dias o desafio é conter as emoções”, revelou Marinúbia.

A enfermeira obstetra desenvolveu problemas na pele ao longo desses cinco anos, cujos sintomas ficam sempre muito visíveis quando ela chora: o órgão assume uma cor mais avermelhada e surgem caroços em torno do pescoço e rosto, sempre acompanhados de coceira. “Eu adoeci muito emocionalmente, desenvolvi vários problemas de saúde. Então, no dia a dia, eu procuro não ficar explodindo, procuro não preocupar as pessoas próximas que estão comigo, sentindo essa dor há cinco anos”. É para a família que se volta o pensamento da enfermeira sempre que se sente mais fragilizada. Mesmo separada do ex-marido, o administrador Oto Malta, de 74 anos, que a acompanhou durante os dois dias de sessão, Marinúbia está sempre com algum familiar.

“Eu defino esse momento como se tivesse morrido por dentro, mas, ao mesmo tempo, sou obrigada a estar viva, porque tem tanta coisa pra fazer. Tenho que lutar por justiça, apoiar minha família. Eu os vi desmoronarem, como se estivessem enlouquecidos, e entendi que não tinha o direito de desmoronar junto. Então, nesses cinco anos, não teve um só dia que eu me dei o direito de me deprimir. Cobrei isso de mim e assim tem sido todos esses anos”, desabafou a mãe das vítimas, que também destacou a solidariedade que recebe quando anda na rua.

*Aratu online