“Não sou heroína, sou sobrevivente do massacre”, diz professora de Suzano

“Não consigo nem chegar perto da porta da escola. Não quero mais voltar ali mesmo que eu esteja bem. Nunca vou esquecer aqueles corpos ensanguentados. Nenhuma terapia vai me fazer esquecer isto. Pode fazer eu melhorar um pouco, continuar minha vida, mas não vou esquecer.” É assim que a professora Lídia* explica ao UOL o peso do massacre de Suzano (Grande São Paulo) em sua vida. Ela dava aula na Escola Estadual Professor Raul Brasil quando dois ex-alunos entraram na instituição e mataram sete pessoas no último dia 13.

Os traumas de sobreviventes de massacres são objeto de preocupação nos Estados Unidos, país com largo histórico de ataques armados como o que aconteceu em Suzano. O governo de São Paulo determinou a retomada do ano letivo na escola na semana passada e ofereceu, no local, suporte psicológico a professores, funcionários e estudantes. A gestão João Doria (PSDB) também homenageou sobreviventes do massacre e pessoas que ajudaram as vítimas. Lídia contesta as medidas do governo e recorre a uma psicóloga particular para tratar do trauma.

Confira abaixo os principais trechos do depoimento da professora à reportagem. Trauma e sensação de abandono Muitas pessoas [que sobreviveram] não conseguem nem sair de casa. Será que foi feito esse levantamento? Que alunos e professores não conseguiram voltar? Por que não estão conseguindo voltar? Estão em casa, estão sendo assistidos?

“Tem gente que não quer ser atendida dentro da escola. Como você vai curar uma pessoa dentro de onde ela sofreu o trauma? Se um assassino entrasse na sua casa e matasse toda sua família menos você, o que você faria com essa casa? Você ficaria nela? Teve aluno que ficou cara a cara com os assassinos, que levou tiro. Tem aluno que saiu de hospital e a gente não sabe como está, as sequelas que ficaram. Imagina [o que é] para um adolescente ficar encurralado dentro de um banheiro com uma pessoa gritando que eles iam morrer, que iam estourar o banheiro. Aqueles que conseguem entrar na escola estão sendo acolhidos. Aqueles que, como eu, não conseguem estão sozinhos. Dá uma sensação de vazio, de abandono”.

Revolta e medalhas

Tenho uma sensação de medo e um pouco de revolta com tudo isso porque eu esperava mais do governo e da mídia. Ficam uma semana em cima de um caso e tem que vir outro [caso], né? Porque cansa e ninguém quer saber mais disso. Começamos a ficar sozinhos.

“Estão minimizando o problema. O luto precisa ser respeitado. A pior ferida ficou dentro da gente. Não acredito que isso possa ser apagado assim tão imediatamente. Esses meninos [os assassinos] que entraram ali não destruíram só as vidas dessas pessoas. Eles destruíram os sonhos de uma comunidade escolar. O espaço Raul Brasil nunca mais vai ser o mesmo.

Soube que o governo [de São Paulo] deu medalha de honra a gente que estava na escola. Não sou heroína, sou sobrevivente. O que o professor está precisando é de melhores condições de trabalho, de segurança na escola. O que faço com uma medalha se um atirador chegar lá? Dou para ele a medalha?”

Direito à segurança

O governo trocou as cadeiras e pintou a escola como se tinta e carteira nova apagassem aquela cena de horror do dia 13. Estão maquiando a escola.

Ninguém quer que isso ocorra de novo no Raul Brasil, certo? Para não acontecer, só tendo segurança. Se continuar desse jeito, quem impede um outro ir lá e fazer a mesma coisa? Não estou sendo pessimista, estou sendo realista. Como vou ser a professora que fui se não me sinto protegida naquele local.

“É preciso ter mais funcionários e um controle maior na entrada, com segurança especializada. O atendimento ao público tem de ser separado do espaço das aulas de aula. Se uma pessoa vai fazer matrícula, não pode ter acesso ao interior da escola. Também é preciso ter saída de emergência com controle remoto porque a gente ficou encurralada na escola. Que as autoridades tenham compaixão, que se coloquem um pouco no lugar da gente. Será que os filhos do governador e do deputado estudam em escolas tão inseguras como as nossas? Será que eles deixam? A gente também tem direito à segurança. A escola pública não é de graça”.

Longe da escola

Achei que eu estava sendo uma pessoa covarde [por não conseguir voltar à escola], mas a psicóloga disse que, por tudo que passamos ali, esta insegurança pode surgir. É algo já previsto. “A minha maior dificuldade é sair de casa e me sentir segura fora de casa. Fico pensando que pode acontecer um tiroteio como aconteceu na escola, fico procurando uma rota de fuga, uma saída de emergência. Não estou apta para o magistério. Tenho consciência disso. Tenho certeza de que posso ter uma crise e começar a chorar na frente dos alunos e ter que sair correndo, assustá-los. Não quero que eles me vejam assim”.

*Uol