Gasolina e mensalidades escolares puxam inflação de Salvador para cima

O preço dos produtos alimentícios foi o principal responsável pelo resultado da inflação oficial do país em fevereiro deste ano ter registrado variação de 0,32%, o mais baixo para o mês desde o ano 2000, quando ficou em 0,13%. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) foi divulgado ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Na avaliação de Fernando Gonçalves, gerente na Coordenação de Índices de Preços do IBGE, as taxas de inflação em patamares baixos ainda refletem as quedas nos preços dos alimentos. “O índice de desemprego ainda está alto, mesmo com as pessoas começando a se recolocar no mercado via informalidade. A renda está começando a se recompor, mas ainda é tímida a recuperação. O que fica mais evidente de perceber é o efeito da deflação de alimentos durante vários meses ao longo de 2017”, avaliou.

O grupo de alimentação e bebidas caiu 0,33%, ajudando a segurar a alta da inflação no mês. Foi a segunda queda seguida para fevereiro. Em 2017, o recuo deste grupo foi ainda mais intenso, de 0,45%. Entre os produtos que mais impactaram o resultado, o destaque foi a carne com recuo de 1,09%. Já o alimento com maior queda foi o alho, que teve deflação de 4,79%. Desde o início do Plano Real, o grupo de alimentação e bebidas só havia caído no mês de fevereiro em três anos: 1995 (-0,06%), 2000 (-0,25%) e 2006 (-0,28%).

Em fevereiro, as famílias pagaram menos também pelas frutas, cenoura, batata-inglesa, açúcar e tomate, entre outros itens importantes da cesta básica.

Nos dois primeiros meses do ano, o IPCA acumula o menor percentual desde o começo do Plano Real, em 1994, com variação de 0,61%. Em 2017, o acumulado no 1º bimestre havia sido 0,71%, segundo o IBGE.

 O que subiu
Se por um lado os alimentos ajudaram a inflação a não subir tanto em fevereiro, as mensalidades escolares fizeram uma força contrária. A inflação de serviços, que apresenta influência da demanda, acelerou de 0,16% em janeiro para 0,74% em fevereiro, pressionada pelos reajustes nas mensalidades das escolas realizados no início do ano letivo.

Apesar do avanço, a taxa acumulada pela inflação de serviços em 12 meses desceu para 4,20%, o patamar mais baixo da série histórica iniciada em dezembro de 2012. Segundo o IBGE, em época de dinheiro curto, a população deixa de consumir serviços supérfluos para investir nas prioridades. Mesmo os reajustes das mensalidades escolares subiram menos este ano. A alta de 3,89% nas despesas das famílias com educação em fevereiro foi a menos acentuada para o mês em uma década.

Revisões
A taxa acumulada em 12 meses voltou a cair, alcançando 2,84%, menor resultado para o mês e ainda mais baixo que o piso de 3% da meta de inflação perseguida pelo Banco Central. Diante dos dados da inflação de fevereiro, economistas apressaram-se em reduzir as previsões para o IPCA deste ano. O BBM reviu sua projeção de 3,6% para 3,5% para a inflação fechada de 2018. O Departamento Econômico do Banco Bradesco cortou sua estimativa de 3,9% para 3,5%, enquanto o banco UBS Brasil reduziu de 3,7% para 3,6%.

A confirmação do cenário inflacionário favorável fortaleceu a expectativa de economistas por mais um corte na taxa básica de juros na reunião deste mês do Comitê de Política Monetária e ampliou a percepção de que o ciclo de redução pode ser estendido.

O analista Tiago Souza, coordenador de pesquisa do Banco BBM, acredita ser “bem provável” um corte de 0,25 ponto percentual na Selic este mês, para 6,5% ao ano. “Acredito que já está dado”, disse ele, acrescentando que o Banco Central pode ainda fazer um novo recuo em maio.

Salvador e região
Entre as 13 áreas pesquisadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a Região Metropolitana de Salvador (RMS) registrou inflação de 0,55% – terceira mais alta, ficando atrás apenas das Regiões Metropolitanas do Rio de Janeiro (0,72%) e de Belém (0,57%). A RM de Fortaleza (0,0%) não registrou variação, e Goiânia apresentou a menor inflação em fevereiro (0,07%).

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) na RMS ficou ainda acima da média nacional, que foi de 0,32%. A inflação acumulada nos dois primeiros meses do ano na RMS ficou em 0,90% também acima da média nacional (0,61%) e a segunda mais elevada dentre as regiões pesquisadas, abaixo apenas da RM  Rio de Janeiro (1,14%). Já nos 12 meses encerrados em fevereiro, o IPCA acumula alta de 1,80% na RM Salvador, ainda menor que a média nacional nesta comparação (2,84%).

O IPCA de fevereiro para a RMS também registrou aceleração em relação à taxa de janeiro (0,35%), mas ficou abaixo da inflação de fevereiro de 2017 (0,57%). Esta foi a menor inflação para um mês de fevereiro, na RM Salvador, desde 2014 (0,48%).

Grupos
Dentre os nove grupos de produtos e serviços que compõem o IPCA, cinco apresentaram alta em fevereiro na Região Metropolitana de Salvador. Com os maiores aumentos e aceleração em relação a janeiro, os gastos com Educação (4,03%) e Transportes (2,41%) foram os que exerceram as principais pressões de alta no IPCA do mês.

Apesar de ter o segundo maior aumento, os Transportes (2,41%) foram os que mais contribuíram para a inflação de fevereiro, por serem um dos grupos de maior peso nas despesas das famílias da RMS. O aumento foi puxado, mais uma vez, pelos combustíveis (8,03%), sob influência maior da gasolina (8,55%). Também foi importante o aumento do Transporte Público (1,03%), sobretudo das passagens aéreas (7,24%) e dos ônibus intermunicipais (1,39%).

No grupo Educação (4,03%), a maior influência veio dos cursos regulares (5,35%), puxados, sobretudo, pelas variações dos ensinos fundamental (8,72%), superior (2,24%) e médio (8,9%). Em Salvador, porém, o aumento em 2018 (4,03%) foi o menor para esse mês desde 2007, quando foi de 3,86%.

Quatro grupos registraram deflação em fevereiro, contribuindo para segurar o IPCA do mês. Alimentação e Bebidas (-0,36%) teve o maior peso para conter a taxa, com forte influência da alimentação no domicílio (-0,84%) e quedas significativas nos preços de itens como biscoito (-4,86%), açúcar cristal (-2,72%), cerveja (-4,6%) e o pão francês (-1,14%).

 

*Correio24h