‘Tenho muito medo que aos 83 anos isso volte’, diz Carlos Aberto de Nóbrega sobre ditadura

'Tenho muito medo que aos 83 anos isso volte', diz Carlos Aberto de Nóbrega sobre ditadura

Foto: Reprodução / TV Globo

Durante participação no programa “Altas Horas”, no último sábado (6), o humorista veterano Carlos Aberto de Nóbrega fez um relato emocionado sobre a ditadura militar no Brasil e revelou o temor de que o país passe outra vez por um regime autoritário.

“Eu tenho muito medo que, aos 83 anos, isso volte, muito medo. Eu tenho netos, tenho dois filhos jovens. Eu tenho muito medo que essa juventude passe o que nos passamos. Eu estou até tremendo, só de falar eu fico nervoso. Viva a liberdade, gente!”, disse o comediante, após fazer relatos de incidentes vividos por ele, amigos e sua família à época.

“Eu fico arrepiado até quando eu vejo isso. Você não faz ideia do que é ditadura, gente. Você não ter o direito de fazer um grupinho na esquina, você ser censurado por pessoas boçais. Eles iam armados”, lembra Carlos Alberto, contanto um caso no qual seu pai teve um texto censurado pela polícia. “Uma hora ele [um personagem] entrou e disse assim: ‘áureo e verde, pendão da minha terra, da brisa do Brasil, que beija e balança’. Veio censurado, ai meu pai perguntou: ‘censurado, por que?’. E ai disseram: ‘olha, seu Nóbrega, pode beija, mas com a balança dá uma conotação de sacanagem’. Ai meu pai falou: ‘meu filho, quem escreveu isso foi Castro Alves’. ‘Ah, então fala com ele, que eu não conheço, pede pra ele cortar, seu Nóbrega’. Essa gente te censurava, então era terrível, você não podia fazer nada”, disse o comediante, destacando a ignorância dos censores, já que o poeta baiano morreu em 1871, quase cem anos antes.

Carlos Aberto de Nóbrega lembrou ainda das perseguições sofridas por Jô Soares e contou que escondia livros do amigo, que era perseguido pela ditadura. “De repente tocava o telefone, Jô se levantava, saia correndo: ‘me ajuda, me ajuda!’, pegava vários livros dele, botava no porta mala do meu carro, que eu não era perseguido, mas ele era, e eu saía com os livros dele e levava pra minha casa, levava pra um outro lugar, que nem ler você podia. Eu tenho muito medo que isso volte! Então, a censura, gente, é muito triste. Você ter o direito de poder ter a tua opinião”, lembrou.

BN