‘Não é nepotismo, jamais faria isso’, diz Bolsonaro sobre levar Eduardo a embaixada

O presidente Jair Bolsonaro voltou a comentar nesta sexta-feira a possibilidade de indicar seu filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), para chefiar a Embaixada do Brasil dos Estados Unidos, e negou que a escolha seja nepotismo, dizendo que jamais cometeria o ato, que é vedado pela Constituição . Bolsonaro reclamou ainda da cobertura da imprensa sobre o caso dizendo que parte dos veículos estão “dando uma lenhadinha na gente”.

— Alguns falam que é nepotismo. Essa função, tem decisão do Supremo, não é nepotismo. Jamais faria isso — declarou o presidente, referindo-se à súmula vinculante número 13, do Supremo Tribunal Federal (STF), de 2008.

As declarações foram feitas durante transmissão ao vivo pelo Facebook, ao lado do apóstolo Valdemiro Santiago, da Igreja Mundial do Poder de Deus, e do Missionário José Olímpio (DEM-SP), ex-deputado federal.

— Agora, se eu vou indicá-lo ou não, aí eu vou esperar o momento certo se vou ou não. Quanto à crítica, não estou preocupado com crítica — declarou o presidente.

Em agosto de 2008, o plenário da Corte decidiu proibir autoridades de nomearem cônjuge ou parente até terceiro grau para cargo em comissão, de confiança ou função gratificada em qualquer dos Poderes, no nível municipal, estadual e da União. Mas não especificou se a regra vale para cargos de natureza política — como, por exemplo, ministros de Estado e embaixadores.

Depois de editada a súmula, que deve ser seguida por tribunais e pela administração pública, foram tomadas decisões diferentes sobre o assunto na Primeira e na Segunda Turmas, cada uma formada por cinco ministros do STF.

Diante da disparidade na interpretação da regra, existe um recurso com repercussão geral aguardando julgamento em plenário, que reúne os 11 ministros (o presidente do tribunal não participa das turmas). Será a palavra final do Supremo sobre o assunto. Ainda não há data marcada para esse julgamento.

Bolsonaro também aproveitou para fazer críticas a adversários políticos que chefiaram o Itamaraty em gestões anteriores.
—  Agora, vocês querem que eu bote quem? Celso Amorim (PT) nos Estados Unidos, que é do Itamaraty? Responda aí. Quem foi o último ministro de Relações Exteriores do Brasil [no governo Michel Temer]? Aloysio Nunes Ferreira (PSDB). Ninguém falou nada. Foi aqui chefe das Relações Exteriores, não tinha formação nenhuma dessa área aqui… inclusive, no passado, quando jovem, ele foi motorista do [guerrilheiro brasileiro Carlos] Marighella. Ninguém falava nada —   afirmou.

Com a edição desta sexta de O GLOBO em mãos, o presidente disse que raramente lê jornais, preferindo fazer “leitura dinâmica, porque se você for ler os jornais, com algumas exceções”, começa envenenado o meu dia. Valdemiro interveio e comentou que “mexe com o emocional”.
—  Por exemplo, [o título] “filho embaixador” aqui na página do GLOBO aqui. O que nós queremos no fundo? Que nossos filhos sejam melhores do que nós. Que seus netos seja melhores que os pais deles. É isso que eu quero. Então, por exemplo: “cogitou a possibilidade de o Eduardo ser indicado embaixador nos Estados Unidos”. Eu até fiz uma… a imprensa conversou comigo ontem e falei: “foi aventada, sim, essa possibilidade”. O garoto fala inglês, fala espanhol, tem uma vivência no mundo todo, é amigo da família do presidente Donald Trump, e existe essa possibilidade — declarou Bolsonaro.

Ele voltou a citar o exemplo hipotético de o filho do presidente da Argentina, Mauricio Macri, ser embaixador no Brasil e disse que, se “logicamente” ele fosse competente, receberia tratamento diferenciado.

Indicação depende de aprovação no Senado

O presidente lembrou que a indicação depende de que o filho aceite o convite e da aprovação de senadores, a quem cabe sabatinar embaixadores. Bolsonaro elogiou Eduardo, afirmando que o deputado é muito melhor do ele por “sua vivência, sua educação, sua formação”, mas destacou ter muito mais experiência.
—  Em muitos momentos quem tem a razão sou eu. Não é lá na base do beque de roça não, mas de vez filho dá de beque de roça também, porque filho pra mim vai ser sempre subordinado meu. E em muitas oportunidades, eu tenho botar na cabeça dele que o caminho que ele está indo está errado – declarou.
Com ironia, ele questionou se deveria aconselhar o filho a renunciar o mandato e voltar a ser agente da Polícia Federal e citou uma frase que atribuiu, sem dar certeza do autor, a um ex-presidente americano:
—  Não sei o caminho do sucesso, mas sei o do fracasso: é tentar agradar todo mundo” […] O pai que mais diz não é melhor que o pai que só diz sim. Bem, cada um educa seu filho da maneira que achar que tem que educar.
—  Mas essa questão aí do Eduardo, vou conversar com ele, passa pelo Senado, não passa por mim. Fico muito feliz porque tenho certeza que se meu filho for sabatinado no Senado, ele se sairá muitíssimo bem. Agora, logicamente, o nosso ministro Ernesto Araújo sabe dessa possibilidade e apoia, e não é porque é meu filho, é porque conhece o Eduardo, desde antes de ele ser ministro das Relações Exteriores —  concluiu Bolsonaro.

*OGlobo