‘Maus brasileiros ousam fazer campanha com números mentirosos contra a nossa Amazônia’, diz Bolsonaro

O presidente Jair Bolsonaro afirmou nesta segunda-feira (5) em Sobradinho, na Bahia, que “maus brasileiros” fazem “campanha com números mentirosos” sobre a Amazônia. A declaração foi dada em cerimônia para inaugurar a primeira etapa de uma usina solar flutuante instalada no reservatório da cidade baiana.

O governo de Jair Bolsonaro vem recebendo críticas de ambientalistas, cientistas, autoridades estrangeiras e da imprensa estrangeira pelas medidas que têm tomado em relação ao meio ambiente e pelos riscos que pode estar gerando para a preservação da Amazônia.

“A Amazônia é um potencial incalculável. Por isso, alguns maus brasileiros ousam fazer campanha com números mentirosos contra a nossa Amazônia. E nós temos que vencer isso e mostrar para o mundo, primeiro, que o governo mudou e, depois, que nós temos responsabilidade para mantê-la nossa, sem abrir mão de explorá-la de forma sustentável”, declarou.
No último dia 19, após o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) divulgar dados que apontam para o aumento do desmatamento na Amazônia, Bolsonaro questionou as estatísticas e o próprio órgão, que disse estar a serviço de ONGs internacionais.

No dia seguinte, o diretor do instituto, Ricardo Galvão, negou as acusações de Bolsonaro e reafirmou os dados sobre desmatamento. Na semana passada, Galvão disse que as declarações dele causaram constrangimento e que será exonerado.

Nesta segunda, mais cedo, o ministro de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Marcos Pontes, disse que cogita escolher um oficial da Aeronáutica para a direção do órgão. O nome deverá ser anunciado no início desta semana.

Em entrevista coletiva após a cerimônia em Sobradinho nesta manhã, Bolsonaro foi questionado sobre o anúncio do novo diretor.

“Olha, o que eu decidi junto aos meus ministros, eles têm liberdade total para fazer a composição do seu respectivo ministério e eu tenho poder de veto, como já exerci no passado. Não é questão de ser militar ou ser civil. Nós devemos ter uma pessoa extremamente responsável e competente, na frente de todos os órgãos que compõe a administração federal”, afirmou.

O presidente também falou sobre a divulgação dos dados que indicaram aumento do desmatamento na Amazônia.

“Um dado como esse, o que ele [Ricardo Galvão] tinha que fazer? Antes de qualquer divulgação, procurar o seu ministro – no caso o Marcos Pontes –, e o Marcos Pontes, dada a gravidade do assunto, me procurar também e nós conversarmos, nós três”, disse Bolsonaro.

“E o que eu exigiria num momento imediato: cheque os dados. Certifique-se da veracidade dos números, porque os números não mentem. A partir do momento em que esses números vazam de forma irresponsável, o Brasil tem um prejuízo enorme junto aos outros países. Nós não queremos censurar e nem vetar qualquer divulgação de número. Nós queremos ter a certeza de quando esses números são divulgados.”

O presidente acrescentou: “E, mais ainda, a explicação dada para mim, pelo ministro, foi que o Inpe computou áreas superpostas ao desmatamento. E outra, a questão da suspeita, o alerta ao desmatamento, ao contrário do que aqueles do Inpe falaram há poucos dias, ela pode não ser verdadeira. Por quê? Porque o fazendeiro pode, por exemplo, na região Amazônica onde ele tem que preservar 80% da tua terra. Dos 20% que pode desmatar, ao desmatar ou ao novamente desmatar – porque foi muito tempo que ele não usou aquela área ser desmatado –, esses dados do Inpe agora computaram como novos desmatamentos. Isso é péssimo para nós”.

Sobre o tema, Bolsonaro citou que que “nós estamos entrando com um acordo enorme com o Mercosul, então começam já ruídos”. Estamos a caminho de assinar um acordo semelhante ao do Mercosul com o Japão, Coréia do Sul, começamos a conversar com os Estados Unidos. Então isso traz um prejuízo enorme para o Brasil. Não temos medo da verdade”.

Após dizer que não pode “admitir irresponsabilidade na divulgação de certos números, por parte de funcionários”, disse lamentar “apenas que ele [Galvão] tenha um mandato”. “Então estamos arranjando uma maneira de substituir.”

Governadores do Nordeste

Durante a entrevista, Bolsonaro, que admitiu no mês passado que pode disputar a reeleição, disse que não vai negar recursos para os estados do Nordeste, mas que os governadores precisarão dizer que “estão trabalhando junto com o presidente Jair Bolsonaro” para serem atendidos.

Em julho, em conversa informal com o ministro Onyx Lorenzoni divulgada pela imprensa, o presidente se envolveu em polêmica com os governadores da região ao afirmar que “daqueles governadores de ‘paraíba’, o pior é o do Maranhão”.

O uso de um termo pejorativo para se referir aos nordestinos provocou a reação de governadores da região, que manifestaram “espanto e profunda indignação”. Ele divulgaram uma carta cobrando explicações de Bolsonaro sobre a fala. No dia seguinte à declaração, Bolsonaro disse que a fala foi uma “crítica” aos governadores do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), e da Paraíba, João Azevêdo (PSB),

“Eu não fiz discurso nenhum sobre ‘paraíba’ e Nordeste. Eu cochichei no ouvido do ministro [Onix] Lorenzoni, eu me referi ao governador da Paraíba e do Maranhão… Que eles procuram nosso ministério, conseguem coisas como outro qualquer, chegam nos seus respectivos estados, alardeiam os recursos para seus estados e ‘descem a borduna’ em cima de mim”, disse.

“O que eu quero desses dois governadores, não vou negar nada para o estado, mas se eles quiserem que isso tudo seja atendido, eles vão ter que falar que estão trabalhando com o presidente Jair Bolsonaro, caso contrário eu não vou ter conversa com eles”, declarou o presidente.

Bolsonaro também disse que “não quer fazer política”, mas que não poderia admitir que os governadores do Maranhão e da Paraíba — Flávio Dino (PCdoB) e João Azevêdo (PSB), respectivamente — fizessem “politicalha em relação à minha pessoa”.

Novo PGR

Durante a entrevista coletiva, Bolsonaro também comentou sobre o anúncio do novo procurador-geral da República, que irá substituir Raquel Dodge. O cargo costuma ser ocupado por um dos nomes indicados pela Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR) em lista tríplice.

“Não vou falar sobre o MP atual. Obviamente que o nome será escolhido entre os quase 80 que estão aí à disposição. Temos excelentes nomes e precisamos bater o martelo por um nome. E pretendo, nos próximos dias, semana que vem no máximo, anunciar esse nome”, disse.

O presidente da República não é obrigado a indicar um dos integrantes da lista eleita pela ANPR. Nos dois mandatos de Luiz Inácio Lula da Silva e também nos dois de Dilma Rousseff, o escolhido para a PGR foi o primeiro da lista.

Na noite se sexta-feira (2), Bolsonaro recebeu, pela terceira vez, o subprocurador-geral da República Augusto Aras. O encontro não constou da agenda oficial de Bolsonaro, divulgada pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência. Aras integra o Ministério Público desde 1987 e se define publicamente como conservador.

*G1