Imprudência na fabricação de fogos pode gerar novas tragédias em Santo Antônio de Jesus

 

 

No texto de Cristina Pita, a dramática constatação de que o mesmo quadro de descaso e imprudência que gerou a tragédia dos fogos de Santo Antônio de Jesus no final dos anos noventa permanece inalterado. Das ações implementadas pelo poder público não se obtiveram resultados práticos e o que se vê é uma espécie de crônica de uma tragédia anunciada. Confira:

 

” Quase nada mudou na região de Santo Antônio de Jesus desde 11 de dezembro de 1998 – quando a cidade ganhou fama mundial devido à explosão em uma fábrica clandestina de fogos. Morreram 64 pessoas (20 delas menores de 18 anos e três mulheres grávidas). Dez anos e meio depois, os responsáveis pela fábrica – o empresário Osvaldo Prazeres Bastos, o Vado dos Fogos, e seus cinco filhos – sequer foram julgados. Sem alternativas, centenas de trabalhadores, inclusive crianças, continuam fabricando fogos em condições que não respeitam normas de segurança ou trabalhistas, aumentando o risco de novos acidentes. Em meio ao descaso dos poderes públicos, uma constatação chocante: grande parte dos chamados “traques de riscar”, usados largamente nas festas juninas baianas, foram fabricados com pólvora clandestina.  “Vocês fabricam fogos aí?”. “Não”, responde prontamente um assustado homem vestido de camiseta, bermudas e sandálias, com o rosto, peito e mãos cinzas de pólvora. Depois de uma breve negociação, ele, ainda desconfiado, concorda em mostrar seu local de trabalho. Em um galpão de aproximadamente 50 metros quadrados, escondido em local de difícil acesso, na zona rural, cinco homens produzem bombas de diversos tamanhos. Sem a proteção de qualquer equipamento de segurança, eles manuseiam pólvora, papel e corda numa fabricação com molde industrial. Cada um com sua função. A poucos metros, um paiol improvisado armazena a produção já concluída. “Tá vendo essas casinhas aí? Todo mundo produz fogos por aqui”, diz o homem, apontando para todos os lados. Sob um clima de medo e desconfiança, os chamados “traques de riscar” continuam a ser produzidos em larga escala nas fábricas clandestinas localizadas na zona rural de Santo Antônio de Jesus. “

 

Fonte: A Tarde