Um levantamento realizado pela empresa DataBrasil, a pedido do site Poder360, revelou que aproximadamente 1,4 milhão de famílias brasileiras podem estar omitindo informações sobre a composição familiar para continuar recebendo os repasses do programa Bolsa Família. A análise cruzou dados do Cadastro Único com estimativas populacionais do IBGE e identificou indícios de fraude em 2.134 dos 5.571 municípios brasileiros.

A fraude mais recorrente envolve a omissão de um dos cônjuges com renda formal, geralmente o pai da criança. Ao se declarar como mãe solo, a responsável pelo cadastro garante o benefício, mesmo que resida com o companheiro, o que contrariaria as regras do programa. Em outros casos, ambos os pais dizem viver separados e solicitam o auxílio individualmente, como se fossem famílias unipessoais.
Um dos exemplos mais expressivos foi registrado em Guaribas (PI), cidade símbolo do início do Bolsa Família. Segundo o Censo, o município tem 151 domicílios compostos por apenas um dos pais, mas 617 famílias se cadastraram com esse perfil para receber o benefício — um possível indício de mais de 460 fraudes.
A capital Manaus (AM) lidera em números absolutos: enquanto o Censo identificou 169.721 famílias monoparentais, o Cadastro Único registra 184.772 beneficiários nessa categoria, sugerindo mais de 15 mil possíveis irregularidades. Já proporcionalmente, o destaque negativo vai para Pracuúba (AP), onde apenas 157 famílias se enquadram no modelo monoparental segundo o IBGE, mas mais de 800 se declararam como tal para fins de recebimento do auxílio.
Os dados, referentes a março de 2025, foram obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI). A legislação atual do Bolsa Família (Lei 14.601/2023) define que famílias com renda de até R$ 218 por pessoa têm direito ao benefício. Contudo, ao omitir informações ou simular realidades familiares, muitas pessoas acabam cometendo fraude ideológica, crime que frequentemente passa despercebido pelos mecanismos de controle do Estado.
A DataBrasil também destacou que em muitos desses municípios há centenas de trabalhadores com carteira assinada, aposentados e pensionistas, o que torna improvável que todas as famílias declaradas estejam de fato em situação de vulnerabilidade compatível com os critérios do programa.




