Correios anunciam reestruturação para conter perda de receita com aumento da concorrência

O presidente Emmanoel Rondon apresentou as medidas, que incluem demissão voluntária e venda de imóveis, para cobrir prejuízo acumulado de mais de R$ 4 bilhões no primeiro semestre de 2025.

Foto: Fernando Frazão / Agência Brasil

Os Correios anunciaram na quarta-feira (15) um plano de reestruturação para cobrir um rombo bilionário nas contas da empresa. O anúncio foi feito pelo presidente dos Correios, Emmanoel Rondon, que está no cargo há menos de um mês. Rondon iniciou o pronunciamento abordando os prejuízos acumulados nos últimos anos. Ele mencionou que a empresa não se adaptou ao aumento da concorrência no setor de encomendas.

“Nos últimos anos, o que vem acontecendo com a empresa – e isso vem de forma crescente – é a perda de market share, a perda de competitividade vem fazendo com que a gente tenha perda de receita. Essa perda de receita impacta o caixa, e ao impactar o caixa – aí eu falo principalmente nos últimos meses -, a gente vem afetando a operação, o que potencializa esse ciclo negativo”, disse Emmanoel Rondon.

Os Correios registram resultados negativos seguidos desde 2022. No acumulado do primeiro semestre de 2025, o prejuízo ultrapassou R$ 4 bilhões. A receita obtida pela prestação de serviços encolheu R$ 1 bilhão em comparação com 2024. No segmento de encomendas internacionais, por exemplo, a arrecadação registrou queda de mais de 60%. Em contrapartida, as despesas administrativas, que englobam salários e precatórios, cresceram quase R$ 1,5 bilhão.

Diante da crise, a estatal negocia um empréstimo de R$ 20 bilhões com um consórcio de bancos. A operação deve contar com garantias do Tesouro Nacional e com medidas de reestruturação da empresa. Entre as medidas anunciadas estão:

Um novo plano de demissão voluntária (PDV). O presidente dos Correios informou que as unidades a serem “enxugadas” ainda estão sendo mapeadas.

Venda de imóveis ociosos. Os Correios não detalharam quais propriedades podem ser vendidas.

Renegociação de contratos com fornecedores.

Os Correios não divulgaram as estimativas de economia e de aumento da receita com essas medidas. Segundo o presidente Emmanoel Rondon, a estatal deve equilibrar as contas em 2026 e, com sucesso, voltar a ter lucro em 2027. Economistas, porém, avaliam que o pacote pode ser insuficiente para reverter a situação.

“É possível, sim, ter uma empresa de correios extremamente rentável e importante para o país. Agora, muita coisa tem que ser feita na atual empresa para que isso vingue. Estamos com problema de gestão, na minha opinião. É insuficiente porque o governo, o setor público, tradicionalmente é um mau gestor. Então, as medidas são muito difíceis de serem tomadas e o gestor não terá a força política para implementá-las”, disse Paulo Feldmann, professor da Faculdade de Economia e Administração da USP.

O pesquisador associado do FGV IBRE, Armando Castelar, afirmou que os Correios não conseguem concorrer, mesmo tendo vantagens como isenções tributárias.

“Só vale lembrar que a empresa tem uma série de isenções tributárias. Quer dizer, ela conseguiu prejuízo mesmo sem pagar um monte de imposto que empresas privadas pagam. Mostra como o prejuízo é ainda maior quando a gente considera esses fatores que beneficiam a empresa de uma maneira muito única. O fato de ser uma empresa privada não impede de forma nenhuma que você siga políticas sociais, por exemplo, de garantir que vai haver atendimento em localidades pequenas ou questões assim”.

No primeiro ano do atual governo, o presidente Lula retirou os Correios do programa de privatizações da gestão anterior, de Jair Bolsonaro.