Brasil tem ao menos 27 possíveis reinfecções por Covid-19 em investigação

Cerca de 27 pessoas estão sendo investigadas por terem supostamente testado positivo para a Covid-19 duas vezes – são os possíveis casos de reinfecção da doença no país.

De acordo com dados levantados pela CNN, São Paulo, que é o estado com o maior número de casos e mortes pelo coronavírus no Brasil, também é o com o maior número de casos investigados: 10 do total. Na capital paulista, segundo o Hospital das Clínicas, sete pessoas procuraram a instituição alegando sintomas da doença após já terem testado positivo anteriormente.

Já no município de Santa Bárbara D’Oeste, no interior de São Paulo, a prefeitura informou em nota para a CNN que a secretária municipal de Saúde, Lucimeire Cristina Coelho Rocha, testou positivo para a Covid-19 duas vezes, uma em maio e outra em julho.

Em Araraquara foi registrado um caso pela prefeitura da cidade. De acordo com nota do órgão municipal, um funcionário do Samu apresentou sintomas em abril, quando testou positivo para a doença. Depois, voltou a apresentar sintomas em julho – quando testou positivo novamente. Segundo a prefeitura, o caso foi encaminhado para o Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto para ser investigado.

No HC de Ribeirão Preto, no entanto, eles já estavam investigando outro caso. Publicada em 5 de agosto, a pesquisa, denominada “Recorrência de Covid-19: um relato de caso”, analisa uma técnica de enfermagem de 24 anos que, com comorbidades, apresentou sintomas da Covid-19 em maio e, segundo o estudo, testou positivo duas vezes para a doença.

O Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto garante no estudo que “o presente relato confirma que, ainda que extremamente rara, a reinfecção por SARS-CoV-2 e o adoecimento por Covid-19 em mais de uma ocasião são eventos possíveis”. “Essa constatação traz implicações clínicas e epidemiológicas que precisam ser analisadas com cuidado pelas autoridades em saúde”, conclui.

O segundo estado com o maior número de possíveis casos de reinfecção no Brasil é o Ceará. Segundo nota publicada em julho, mas que ainda é considerada válida pela Secretaria de Estado da Saúde, nove profissionais de saúde testaram positivo para a Covid-19 em duas ocasiões diferentes.

De acordo com o documento, as amostras foram colhidas e a infecção confirmada por RT-PCR entre março e abril. No entanto, após a reaparição dos sintomas, os testes foram realizados novamente e os resultados resultaram em positivo entre os meses de maio e junho.

No Goiás, todos os possíveis casos de reinfecção identificados também foram em profissionais de saúde. Ao todo, a secretaria de saúde identificou 6 casos de pessoas que testaram positivo duas vezes. Segundo a pasta, um grupo técnico do Centro de Operações de Emergências (COE) em Saúde Pública de Goiás analisa os casos.

Em Minas Gerais, um caso está sendo investigado em Divinópolis, junto à secretaria municipal de Saúde. Já no Rio de Janeiro, há também o registro de um possível caso de reinfecção, de uma mulher moradora de Volta Redonda, que teria sido infectada em maio e agosto. Segundo a Secretaria de Saúde do Rio, a pasta e o Ministério da Saúde investigam o caso.

Isso significa que todos esses casos, de fato, tiveram Covid-19 duas vezes? Embora os casos ainda estejam em investigação, o Hospital das Clínicas de São Paulo possui três hipóteses que podem explicar o diagnóstico duplicado: longa permanência do vírus no corpo, reativação do vírus e possível reinfecção.

Para constatar qualquer uma das hipóteses, os pacientes devem ser acompanhados com exames adicionais para que os hospitais e órgãos que investigam os casos tenham o diagnóstico final se é ou não possível a reinfecção por Covid-19.

Outras hipóteses

A reinfecção é apenas uma das hipóteses estudadas pelos médicos brasileiros. Os pesquisadores da USP de Ribeirão Preto classificam como “evento raro” porém “possível”. Em entrevista à CNN, o pesquisador Max Igor Banks elencou três outras possibilidades. A primeira é uma infecção por outro vírus, como o da gripe, que promova sintomas semelhantes aos do coronavírus. Neste caso a pessoa tem sinais como febre, tosse e dor de garganta, mas provocadas por outra doença. No entanto, como o corpo ainda não teria se livrado completamente do coronavírus, fragmentos dele são detectados no teste.

Uma segunda possibilidade é o vírus ter “adormecido” por meses. É como se ele continuasse no corpo, mas não manifestasse sintomas num intervalo de tempo entre a primeira e a segunda vez. Isso não significaria uma reinfecção, mas sim uma duração mais longa da Covid-19, diferentemente do que os médicos imaginavam inicialmente. “Essa é a possibilidade que eu menos acredito”, disse Banks.

Há ainda uma nova hipótese elencada pelo grupo do Hospital das Clínicas. É de que o vírus fique “esquecido” pelo organismo por semanas. Como se o corpo não o percebesse mais ali. E quando ele descobre o vírus esquecido e decide reagir, os sintomas voltam nessa batalha para eliminar de vez o novo coronavírus.

Pesquisador desconfia

Em entrevista à CNN, o pesquisador da USP de Ribeirão Preto Fernando Bellissimo-Rodrigues disse desconfiar do caso de reinfecção em Hong Kong. Ele aposta que a técnica de enfermagem de 24 anos estudada pela universidade se trata, sim, de um caso de reinfecção, mas não teve o relato publicado por nenhum periódico científico brasileiro ou reconhecido por um órgão técnico.

“No caso de Hong Kong não teve o pilar epidemiológico e nem o clínico, quem me garante que o segundo caso não foi o falso positivo?”, diz ele.

Belíssimo-Rodrigues chama de “pilar epidemiológico” o contato com o coronavírus nos dois episódios distintos do surgimento dos sintomas. Já o pilar clínico é a manifestação de sinais da doença – no caso da paciente estudada por eles, entre os primeiros sintomas (que duraram 10 dias) e os novos sinais de coronavírus, ela ficou 38 dias assintomática. O pilar laboratorial é o exame positivo nas duas oportunidades, item comum no caso brasileiro e no caso oriental.

Acontece que os brasileiros não guardaram o resultado do primeiro exame positivo da paciente – nem ela própria guardou. “Nós não temos a e evidencia ultramolecular com em Hong Kong porque nós não guardamos a amostra dela, então a gente não tem como fazer essa evidência de fazer a identificação do vírus e tal. Mas eu, sinceramente, acho que essa prova é desnecessária para o ‘julgamento do crime’”.

“Muitos médicos valorizam extremamente a prova molecular em detrimento das demais, como a prova clínica e a prova epidemiológica. No meu entender isso é um viés”, defende ele.

Perguntado se pode cravar se o caso de Ribeirão Preto trata-se de uma reinfecção do coronavírus, o pesquisador alegou que “tanto na medicina quanto no amor, a gente não diz nem nunca nem sempre”. “Eu não posso te falar que é 100%, mas eu posso te dizer que essa explicação [de outras hipóteses] é muito improvável (…), se fosse um outro vírus ou um processo de ‘clarificação’, como é que explicaria ela ter tido o sintoma só depois que um familiar ter tido a doença e transmitido pra ela?”, diz ele.

Ao final da entrevista, a CNN questionou o pesquisador quanto ele apostaria que o caso estudado por ele trata-se de reinfecção se tivesse R$1 milhão de reais para apostar. “Apostaria R$2 milhões. Estou bastante convicto de que a evidência é forte o suficiente”, declarou Belíssimo-Rodrigues.