João Roma: “Nosso Judiciário não tem dado bons exemplos”

João Roma: “Nosso Judiciário não tem dado bons exemplos”

Quando assumiu o Ministério da Cidadania, em fevereiro de 2021, João Roma nem sequer conhecia o presidente Jair Bolsonaro. Aos 49 anos, deputado de primeiro mandato, ele foi indicado ao cargo pelo Republicanos, um dos partidos do chamado Centrão, que havia acabado de fechar uma aliança política com o governo.

A crise provocada pela pandemia transformou uma pasta de pouquíssima visibilidade até então na principal e talvez mais importante vitrine do governo, especialmente em ano eleitoral. Seu principal programa, o auxílio emergencial, mitigou um tsunami social de consequências imprevisíveis. No embalo, o governo também reformulou o programa Bolsa Família, que agora se chama Auxílio Brasil, aumentando o valor do benefício e governo da Bahia. Nesta entrevista a VEJA, o agora ex-ministro, que é bacharel em direito, fala sobre o aumento da miséria, do quanto a personalidade irascível de Bolsonaro ajuda a criar confusões e faz críticas pesadas ao Supremo Tribunal Federal. A seguir, os principais trechos.

O presidente sempre foi um crítico de programas de transferência de renda e hoje conta com o Auxílio Brasil para alavancar votos, em especial no Nordeste. O que mudou?

Bolsonaro tinha muitos senões a programas sociais, porque ele tinha a percepção de que o Bolsa Família dava esmola ao cidadão.Não era uma coisa palatável para ele. Um dia, com o dedo apontado para o rosto do presidente, eu falei: “O Bolsa Família nunca vai ter a sua cara porque o senhor tem vergonha até de entregar uma cesta básica no Pará”. Dias depois ele me disse: “Faça o que você acha que é certo, mas faça de tudo para ajudar os mais necessitados”. Foi
uma ordem bem abstrata mesmo. Foi aí que criamos o Auxílio Brasil.

Quanto a equipe econômica influenciou no valor final de 400 reais para o auxílio?

A definição dos valores foi uma grande epopeia político-administrativa. O Auxílio Brasil era o caminho natural para
atravessarmos a pandemia, mas para o fortalecimento social era preciso tratar com a equipe econômica. Paulo Guedes estava muito fechado, sempre buscando responsabilidade fiscal, mas sem sinalizar exatamente qual era o valor possível. Parecia que cada um falava uma língua diferente. Se houvesse uma estrutura de coordenação no Executivo, atritos e ruídos poderiam ter sido evitados.

O presidente não é a fonte principal desses atritos e ruídos?

Bolsonaro representa uma mexida de placa tectônica no tabuleiro político brasileiro. Ele tem uma forma muito própria de se relacionar e de projetar o caminho das ações do governo. Isso propiciou um governo que não fosse estabelecido em concordâncias e harmonizações. É um governo que tem como premissa a fricção.

Acabar com o Bolsa Família não deu discurso aos opositores do governo?

O projeto social do PT não era o Bolsa Família, era o Fome Zero — e foi um fiasco. Depois, criou-se o Bolsa Família, que foi importante, mas teve algumas cicatrizes, como denúncias de que vereadores do PT estavam colocando gente para receber o benefício. O Bolsa Família deu escala à política de transferência de renda, mas já estava completando dezoito anos e precisava de avanços, como a porta de saída para o beneficiário. Veremos no médio prazo de maneira forte como o nosso programa vai estimular as pessoas na superação da pobreza.

“Os beneficiários do Bolsa Família hoje veem o valor do programa triplicado e com perspectivas de saírem da situação de pobreza em que se encontram. Eles querem voltar ao passado?” 

Por que o programa social de Bolsonaro não tem se materializado em intenções de voto ou em
reconhecimento do governo?

Quem disse que não? Tivemos uma melhora nos índices do presidente. Sobre pesquisa, fica a máxima: se Bolsonaro acreditasse em pesquisa ele não seria hoje presidente da República. Por isso digo que em eleições treino é treino, jogo é jogo. Os beneficiários do Bolsa Família, que eram muito vinculados ao Lula, hoje veem a fila do programa zerada, o valor do programa triplicado e com perspectivas de saírem da situação de pobreza em que se encontram. Eles querem voltar ao passado?

O Brasil voltou ao Mapa da Fome da FAO.

A fome nunca vai zerar completamente. É como cortar o cabelo em um mês e no mês seguinte ter de cortar de novo. Mas acho que criamos os pilares para superar esse tema em uma geração. Estamos passando por uma grande pandemia e há também a questão inflacionária, mas não tivemos crise de desabastecimento.

O retrato mais recente da fome é de pessoas procurando ossos para comer, imagem que está sendo usada politicamente para caracterizar a situação de miséria provocada pelo governo Bolsonaro.

Não se pode depositar no governo a responsabilidade de um fenômeno que, após a II Guerra, foi o Claro que as cenas são chocantes, mas o governo federal fez de tudo e não faltou à população brasileira. A dificuldade que a sociedade atravessa é um fenômeno global, e não uma ação pontual do governo.

De saída do governo, o senhor pode dizer de forma franca o que acha do presidente?

Bolsonaro tem um jeito de se expressar muito rude de vez em quando, ou mais que de vez em quando. Ele é como um carro que não tem caixa de marcha, vai direto, é extremamente espontâneo. Bolsonaro não consegue sequer fazer silêncio sobre uma coisa que ele não precisava comentar. Essa é a essência dele e isso provoca ruídos, algumas confusões, quedas de braço, como as que se veem com o Judiciário.

Fonte: Veja