SAJ: Mãe de menino autista relata desafios e pede compreensão das pessoas, “É trabalho de formiguinha”

Nesta terça-feira (02) é comemorado o Dia Mundial de Conscientização do Autismo, que visa difundir informações acerca do autismo e reduzir a discriminação. Mas, apenas um dia não basta para que as pessoas compreendam e aceitem no seu convívio social um autista. Quem é mãe sabe bem como é esse desafio. O Blog do Valente conversou com uma moradora de Santo Antônio de Jesus, Sandra Andrade que conta com detalhes a rotina com seu filho Arthur de 06 anos. Uma gestação tranquila, parto normal, nasceu Arthur, um bebê quieto que não chorava por nada e não sorria para ninguém. Sem demonstrar apego à família, o pequeno Arthur gostava de brincar sozinho e não se interagia com outras crianças. De acordo com Sandra, o médico achava tudo normal e não sinalizava nenhum problema, até que uma professora desconfiou do autismo e sugeriu a mãe procurar um psicólogo e fazer uma avaliação. Em março de 2016, o laudo psiquiátrico comprovou o autismo, “Passamos por tantos profissionais, o sofrimento só aumentava, junto com o desgaste. Foi um choque e um alívio, finalmente tinha um papel atestando o que ele tinha. A confirmação foi um misto de sentimentos, incertezas, medos, desespero, falta de informação, não saber o que fazer nem como agir. Entrei num período negro, vivi um luto que parecia interminável, chorei pelo filho que idealizei, pelos sonhos que projetei para o futuro dele, por não saber o que seria dele quando eu não estivesse mais aqui, a gente pensa tanta coisa. Enfim, sacudi a poeira e fui em busca de conhecimento para ajudar meu filho a ter um futuro independente, a ter uma vida, uma profissão”, disse.

Mas, apesar do apoio, ser mãe de um autista é lidar com um desafio atrás do outro e cada dia mais renunciar a si mesmo em prol de uma vida super dependente. Para Sandra, existem aqueles dias escuros, sem vida e sem esperança. Em um dos seus relatos na página do Facebook, Sandra expressou sua dor e impotência, ao mesmo tempo que fala do grande amor que tem pelo filho, “Hoje é o dia que não consigo romantizar nada de belo no autismo, dia que amanheci sem esperanças, machucada físico e emocionalmente, sem respostas, impotente. É uma luta constante, todas as horas e minutos e segundos, perco a paciência, tenho vontade de sair porta a fora e andar ao esmo, sem rumo, sem direção, sem pensar, só andar, andar e andar. Não é falta de amor, é desespero, é vontade de chegar a algum lugar.  Vejo progressos, comemoro, busco melhorar com ele e por ele, mas às vezes parece ser em vão. Não é desistência, é um desabafo, sei que daqui a pouco ele vai entrar em casa me beijar nos olhos, como ele ama fazer, e tudo isso vai passar, mas nesse momento me sinto a pior mãe do mundo, me sinto a impotência em pessoa, me sinto sufocada e perdida. Uma mãe tem o direito de surtar às vezes, uma mãe típica já tem seus dias de loucura imagina no meu caso. Tudo é imprevisível e o que parece certo e legal agora, daqui há 10 minutos é intolerável e insuportável, dificuldades vencidas voltam sem aviso prévio e me deixam perdida e descontrolada, mas eu não posso me descontrolar quando ele se desorganiza, preciso manter o controle e ajudá-lo a se organizar, só que tudo isso exige de mim nervos de aço, e eu não os possuo”, desabafou.

Embora as lutas sejam muitas, o amor e gratidão pela vida do filho falam mais alto e Sandra conhece a equoterapia no 14º Batalhão de Polícia Militar, que contribuiu no desenvolvimento do filho, “Você pensa logo na integração da criança com o animal, com a natureza, mas na verdade não sabemos os benefícios reais, o que essa terapia faz pela criança. Tinha expectativas, claro, e muitas, mas não tinha ideia do que esperar, os resultados vão surgindo, as mudanças vão acontecendo. Arthur despertou pra vida, se pôs como pessoa que tem vontades, ele agora dá respostas mais coerentes, escolhe o que quer comer, já come sozinho, ele decidiu até sobre seu aniversário, o que queria e onde queria, está mais concentrado, mais ligado no que acontece ao seu redor, adora cantar e dançar, ele quer sempre ajudar, já obedece nossos comandos (pegar ou guardar algo, coisas do tipo), melhorou em muitos aspectos”, explicou. A equipe do CEVIP é formada por policiais e profissionais da comunidade voluntários, “Nos recebem sempre com muito carinho e respeito, são profissionais dedicados e preparados e os animais são dóceis”, frisou. Evangélica, Sandra e sua família tem encontrado apoio também na Igreja Batista da Esperança, da qual são membros. Lá, Arthur tem contato com outras crianças, participa de atividades lúdicas e tem atenção especial voltada às suas dificuldades. O amor e união da família tem sido o grande fator para que Arthur tenha avanços no tratamento. O cuidado dos dois irmãos, da mãe e do pai, um militar da reserva, Arthur está sendo alfabetizado normalmente, faz todos os tratamentos necessários e te apresentado melhoras no seu comportamento social.

“Não digo que tem sido fácil, muito pelo contrário, mas é possível, com muito amor, perseverança e vontade vamos conseguindo. É trabalho de formiguinha, um dia de cada vez, e, às vezes alguns retrocessos, mas vamos caminhando. Nosso pedido hoje é só por compreensão, não é fácil pra eles se colocar para o mundo em pé de igualdade, eles não sentem como nós, não me refiro a sentimentos e sim sensações, neles tudo é intenso, audição, tato, olfato, tudo se intensifica a ponto deles sentirem dor, de se desorganizarem, de não saber como expressar esse desconforto e começar a gritar ou bater, ou se bater ou tantas coisas. Para nós pais é duplamente doloroso ver nosso filho em sofrimento, pedindo para ser retirado daquela situação e ver o olhar alheio, julgando, condenando, se afastando com medo, repulsa e preconceito, não estou falando de ouvir falar, falo do que já passei e passo. Nesse mês de conscientização vamos aproveitar para conhecer, para entender, para compreender, vamos pôr a empatia em prática”, finaliza.