Baiano cria game de sucesso mundial em mercado que movimenta R$ 4 bilhões por ano no Brasil

Foto: Divulgação

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O baiano Daniel Silveira conseguiu uma façanha que poucos desenvolvedores brasileiros de games conseguem: ganhar dinheiro com jogos. Ele é o criador do “What The Box”, lançado no dia 12 de setembro de 2016. O jogo viralizou e acabou se tornando o mais recente hit entre alguns dos maiores youtubers do mundo.

Segundo levantamento do site Pixstudios, o Brasil é o quarto maior mercado de games do mundo, e só em 2012 movimentou 1 bilhão de reais. E a previsão é que, em 2016, os jogos digitais movimentem cerca de 4 bilhões de reais no país. Em 2013, segundo o Tecmundo, a média salarial anual do setor de desenvolvedores de jogos foi de US$ 83.060 — uma média de US$ 6.921 por mês. No Canadá a média é de US$ 71.445 e, na Europa, a média é de US$ 46.232. Daniel, no entanto, não pode revelar o quanto está faturando por questões contratuais.

No “What The Box”, o jogador controla uma caixa de papelão que está em um ambiente com outras caixas de papelão. O objetivo é destruir os outros jogadores que também estão controlando caixas. Para isso, o jogador tem uma “arma de grampos” e um estilete.

O problema é que, quando você tem um estilete na mão, os outros jogadores sabem que a caixa é um jogador rival e não apenas um objeto do ambiente. Durante o jogo, fica muito difícil saber qual caixa faz parte do cenário e qual caixa é um jogador. Quem está jogando pode se camuflar no ambiente para se proteger. Quem quiser comprar o game, pode encontrar pelo site whattheboxgame.com.

Jogado e narrado em quase todas as principais línguas do mundo (tailandês, coreano, russo, francês, polonês, dinamarquês, italiano, japonês, entre outras), o “What The Box” chegou a ser comentado pelo youtuber PewDiePie, que possui mais de 48 milhões de seguidores ao redor do mundo. O game custa $4.99 (R$ 9.99 no Brasil).

O Varela Notícias conversou com Daniel Silveira, que atualmente mora no Canadá. No papo, o desenvolvedor falou sobre como criou o “What The Box” e deu dicas para quem quer começar a trabalhar com games. Leia a entrevista:

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Varela Notícias – Como surgiu a ideia do “What The Box”?

Daniel Silveira – O ramo de desenvolvimento de jogos têm uma coisa que a gente chama de Game Jam, onde vários desenvolvedores se organizam online ou presencialmente para fazer um jogo com quantidade de tempo limitada. No caso, eu estava participando de uma Game Jam organizada por um canal de YouTube voltado para o ramo de jogos indie, chamado de “365 Indies” e o tema era: “Isso não deveria estar aqui”.

Geralmente as Game Jams têm um tema e todos os jogos são baseados neste tema. Então, eu estava pensando e conversando com uma amiga minha, que me sugeriu o seguinte: “Por que você não faz um jogo meio que de esconde-esconde?”.

Ela falou que isso faz sentido com o tema “Isso não deveria estar aqui” e ela apontou o “Prop Hunt” como exemplo, que é um jogo que é mais ou menos um esconde-esconde, onde um time pode se esconder como objetos do cenário, enquanto o outro time tentar achar este time escondido. Eu dei uma olhada neste jogo e tive a ideia de fazer o “What The Box”.

VN – O que você está achando da repercussão do jogo?

Daniel Silveira – Eu estou achando ótimo. Eu até lancei um outro jogo na STEAM, agora em maio, e ele teve uma repercussão muito boa com o pessoal do YouTube, como na mídia. A gente esteve na BGS, na GDC e em vários grandes e importantes. Ele está indo até para o X-Box, mas ele não teve nem de perto a repercussão do “What The Box” em termos de jogadores.

O “What The Box” superou todas as minhas expectativas e continua superando, ainda mais que o “Rocket Fist” [outro jogo desenvolvido por Daniel] foi feito em um ano e o “What The Box” foi feito em 29 dias e está fazendo sucesso muito maior.

VN – Como foi trabalhar com Thiago Adamo (responsável pelo áudio e trilha do game)?

Daniel Silveira – Eu não sou músico. Faço tudo nos jogos, menos a música e o áudio que é uma habilidade que eu não tenho. Eu faço a arte, faço a programação, faço game design, o teste, a animação, a iluminação… Tudo que não tiver áudio, eu faço. A minha parceria com Thiago vem de alguns anos e todos os jogos que fiz, ele fez as músicas e o Sound Design e esta parceria deve continuar para os próximos jogos porque a gente curte muito a música. Muita gente até diz que comprou o “What The Box” por causa da trilha sonora e muita gente pergunta quando vai ter a soundtrack pra baixar. Gosto muito do trabalho dele, estou muito satisfeito.

VN – Você é baiano? Como começou a trabalhar na área?

Daniel Silveira – Eu sou baiano, morei em Salvador até os meus 21 anos. Depois disso, estava fazendo o curso de Publicidade e Propaganda na UNIFACS e quando eu terminei meu curso, vi que a coisa que que queria fazer era o curso de animação 3D. Na época existia o Youtube, porém ele não era tão prevalente nos tutoriais, porque hoje em dia é muito fácil aprender e na minha época não tinha. Por isso me mudei para Vancouver (Canadá), para poder estudar mais sobre o assunto. Saindo de lá, peguei um freelancer na área de jogos, animei um trailer na Flórida, e comecei a programar e a fazer jogos por mim mesmo. E, continuei fazendo jogos aqui mesmo em Vancouver.

Fiz um mestrado em Mídias Digitais, trabalhei um pouco em uma empresa de realidade virtual como artista técnico e depois saí para fazer a minha vida, meus próprios jogos como, o “Rocket Fist”. Agora posso dizer que sou um desenvolvedor independente e que estou ganhando a vida com os meus próprios jogos. Não moro mais na Bahia, estou morando aqui no Canadá.

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=Yu-O5zDYkZc]

VN – Como você vê o mercado de games no Brasil?

Daniel Silveira – Não tenho muito conhecimento do mercado de games no Brasil. O que eu posso dizer do mercado de games no Brasil? Tem umas empresas muito boas. Se você quer ser competitivo e realmente ganhar a vida com seus jogos, não acho que é uma boa ideia mirar o mercado de games no Brasil. As empresas que estão fazendo sucesso não estão fazendo jogos para o Brasil, estão fazendo jogos para o mundo, porque o mercado hoje é global.

Quando você coloca um jogo na STEAM, não está vendendo só no Brasil, está vendendo para o mundo inteiro. Se você olhar para os meus jogos, o Brasil dá menos de 2% de downloads. Ele tem vários jogadores nos Estados Unidos, na Rússia, na Grã-Bretanha, no mundo inteiro… Brasil até figura entre os 10 primeiros, mas não é algo que você fala “vou fazer um jogo para brasileiros”. Você tem que fazer jogo para o mundo.

VN – Qual a dica para quem quiser começar a trabalhar com games na Bahia?

Daniel Silveira – A dica que dou é que você não largue o seu emprego principal para perseguir isso, porque não é fácil e vai demorar para você se manter com seus jogos. Você vai ter que fazer muitos jogos. O “What The Box?” é o meu 28º jogo e somente com o “Rocket Fist” que eu comecei a ganhar dinheiro com os meus jogos.

Não é algo fácil ganhar dinheiro com isso, não é algo que vai acontecer do dia para a noite. Minha segunda dica é que você faça primeiro jogos pequenos e curtos, porque quando você está aprendendo, vem na sua cabeça a ideia de fazer jogos gigantescos que é o que você gosta: “Vou fazer um GTA, um Call Of Duty, um RPG com 500 mil personagens”. Você não vai fazer isso, porque quem faz isso é um time muito grande de pessoas que estão anos fazendo isto e você é só uma pessoa aprendendo a fazer jogos.

Até porque, tudo o que você for fazer pela primeira vez vai sair péssimo. Quando você está aprendendo a tocar violão, você não vai lá fazer logo um CD. Não é assim. Você toca primeiro uma música mais simples, você vai lá, melhora, e a cada música que você aprende tá melhorando mais. É a mesma coisa com jogos… Você começa com um ‘pong’, com um jogo da memória, com um “space invaders”, para poder ficar melhor e para cada jogo que você fizer, vai sair melhor ainda.

VN – Sabe-se que quando esses jogos, os criadores ganham muito dinheiro. Quanto você está ganhando? Você já ganhou o seu primeiro milhão fazendo jogos?

Daniel Silveira – Não posso compartilhar essa informação, tem um acordo de non-disclosure com o STEAM. A plataforma (STEAM) fica com 30% do valor. O jogo custa $4.99. No Brasil se não me engano está por R$9.99.