Dra Júlia Rocha: “Lá vem mais um querendo atestado” – sobre como eu mudei

“Boa tarde, Francisco. Como posso te ajudar?”

“Doutora, trabalho em um supermercado, no estoque carregando caixas muito pesadas, subindo escada com elas. Coisa de louco. Então, de anteontem para ontem, eu trabalhei até às 5 horas da manhã carregando muito peso. Ontem fui trabalhar e carreguei peso, denovo. Hoje eu mal consegui sair da cama para vir aqui.”

“Essa dor é nova ou é antiga, Francisco?”

“Muito antiga. Trabalho lá tem quase 10 anos e sempre foi essa rotina. Eu nem costumo vir por causa disso. Normalmente eu vou num médico de coluna do plano da empresa. Já fiz ressonância lá e ele me disse que tenho hérnia de disco mas que é muito pequena e que não é caso de cirurgia. Ele só me passa umas injeções para aliviar.”

“Alivia?”

“Alivia, mas logo que eu me esforço denovo, a dor volta. Ele mandou eu fazer fisioterapia. Eu fiz e me ajudou demais, mas quando eu paro de fazer e me esforço no trabalho, a fisioterapia desse pelo ralo.”

“Posso te examinar?”

“Pode.”

“Deita na maca…..” “Agora em pé.” “Pode tirar o chinelo?” “Tira a camisa.” “Olha para aquela parede.” Isso. Aqui dói? Aqui?”….

“Sabe doutora, o problema é essa hérnia que eu tenho. Ela que acaba comigo. Tive um colega que foi demitido. Fico até com medo de pegar atestado por que eles não vão querer saber se eu tô com dor, né. Emprego tá muito difícil… A senhora não consegue umas injeções pra eu melhorar, não? Eu preciso trabalhar.”

“Já te disseram que essas injeções tem consequências?”

“Como assim?”

“São anti-inflamatórios, corticóides. Se usados dessa forma, elas podem prejudicar a saúde dos seus rins, podem causar aumento da pressão, da glicose, prejudicar seus ossos. Elas não são solução para o seu problema.”

“Mas o que eu faço com a hérnia, doutora Júlia?”

“Francisco, existem pessoas que tem hérnias maiores na coluna e não sentem dor por que não pegam peso como você pega. O problema não é o seu corpo. É o seu trabalho. Você não me disse que quando você fez fisioterapia, você sentiu muita melhora?”

“Muita!”

“Pois é. Concordo com o médico que te dá as injeções. Esse é o seu tratamento. A questão é que o seu trabalho te adoece. Nosso corpo não é uma máquina incansável que aguenta pegar peso o dia inteiro, anos à fio.”

Ficamos em silêncio. Ele de cabeça baixa… eu só o observava.

“Doutora, eu não sou daqui. Acho que a senhora também não, né. Eu sou do Tocantins. Há 13 anos eu vim pra essa cidade na busca de melhorar de vida.”

“Melhorou?”

“Não. Foi uma grande ilusão. Meu sonho é voltar, mas não quero voltar como um fracassado. Quero conseguir alguma coisa aqui. Por isso, todo dia eu acordo com dor, tomo um comprimido e vou trabalhar. Meu pensamento é que eu vou conseguir alguma coisa e depois vou voltar pra minha terra. Isso que se vive aqui não é vida, não. Saio do trabalho tão esgotado que a única coisa que faço quando chego em casa é comer, tomar banho e dormir para sair às 4 da manhã e trabalhar mais um dia.”

Há 6 anos eu me formava médica e sempre que me deparava com um Francisco, do alto da minha arrogância e falta de sensibilidade eu pensava: “Que folga desse cara! Se não tá aguentando trabalhar, por que não sai do emprego?! Eu não quero ficar dando atestado. Não estudei pra isso.”

Hoje, depois de conhecer a realidade de tantos Franciscos, eu me tornei uma pessoa menos idiota. Hoje sou capaz de enxergar o que antes eu não enxergava, principalmente por que abri meus olhos e ouvidos a realidade dos mais pobres. Eu saí às ruas, subi o morro. Lá, a vida é muito mais pesada. Lá se carrega o mundo nas costas. O mundo dos privilégios alheios.