De anti-HIV a proteção de bichos: veja pesquisas do CNPq que podem parar

Equipe de Izabel Paixão (no fundo, à direita), que busca tratamento alternativo contra HIV

 

O orçamento para 2019 do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) é insuficiente para fazer o pagamento das 84 mil bolsas da entidade até o final do ano. O dinheiro esgotou-se em setembro —o órgão planeja transferir recursos do fomento para honrar as bolsas de outubro. Para os três meses restantes (a bolsa de dezembro é paga em janeiro), o CNPq ainda busca uma solução. Na semana passada, o ministro Marcos Pontes, do MCTIC, disse que está batalhando por recursos para cumprir esse compromisso junto ao Ministério da Economia.

Enquanto isso, pesquisas que trazem progresso ao país como tratamentos avançados para HIV, zika e câncer, ou alternativas para o uso de animais em testes ficam em modo de espera. O professor da Universidade Federal de Pernambuco Severino Alves Jr. pesquisa novos métodos de tratamento de câncer. Entre os seus projetos de pesquisa, estão o desenvolvimento de nanomarcadores para detecção e tratamento de câncer, num modelo conhecido como teranóstico o mesmo produto é utilizado para diagnóstico e tratamento. Para isso, são utilizadas nanopartículas com material multifuncional, que tanto emite radiação para tratamento quanto luminescência para monitorar o tumor. Hoje testado apenas em ratos, no futuro o modelo permitiria começar o tratamento mais cedo, assim como reduzir a dosagem dos medicamentos utilizados pelos pacientes. Além da verba do CNPq, as diversas pesquisas do laboratório são financiadas com recursos de várias origens, como o Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), ligado ao Ministério da Educação, e a Facepe (Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia do Estado de Pernambuco). Ainda assim, um iminente corte do CNPq pode parar a pesquisa.

“Aqui no laboratório giram em torno de 50 pessoas, contando com estudantes de iniciação científica, mestrado, doutorado”, conta Junior. “Se não pagar as bolsas, eles não têm como vir trabalhar.” O professor é ele próprio bolsista de produtividade científica do CNPq, uma categoria reservada a acadêmicos com alto volume de pesquisas e publicações. Mensalmente, ele recebe cerca de R$ 1.400 mais R$ 1.100 para gastos com bancada, esta segunda fatia ele investe integralmente no laboratório.

Anti-HIV em alga e bichos

Izabel Paixão, professora da Universidade Federal Fluminense e chefe do Laboratório de Virologia Molecular e Biotecnologia Marinha, conduz uma linha de pesquisa que busca em substâncias encontradas em duas algas da costa brasileira capacidade de tratamento ou prevenção contra HIV, herpes, zika e chikungunya. No caso do HIV, a ênfase é a prevenção. A pesquisa de Izabel atua nessa frente, pois a substância do grupo dos diterpenos polioxigenados tem grande potencial inibidor na etapa inicial do vírus HIV, antes dele entrar na célula humana. Comparadas a coquetéis como o AZT, a grande vantagem é que os diterpenos não são tóxicos, diminuindo os efeitos colaterais.

*UOL