O homem que não consegue sentir emoções

O dia de seu casamento também lhe pareceu desinteressante. “Para mim, era como uma produção teatral, algo mecânico”, admite Caleb, cujo sobrenome ele não quis revelar.

Caleb afirma que quase não sente nenhum tipo de emoção, seja ela boa ou ruim. Eu o conheci em um fórum na internet para pessoas que sofrem de alexitimia, um tipo de “cegueira emocional” que as impede de perceber ou expressar os vários sentimentos que normalmente enfeitam nossas vidas.

O distúrbio é identificado em 50% dos pacientes com autismo, mas muitos “alexes”, como eles gostam de se chamar, não apresentam nenhum outro componente do problema, como o comportamento compulsivo ou repetitivo.

Descobrir a fundo tudo o que envolve a alexitimia pode ajudar cientistas a entender melhor muitas doenças graves, da anorexia e da esquizofrenia à dor crônica e à síndrome do intestino irritável.

Camadas de sentimentos

Para entender essa paralisia emocional, pense nas emoções como uma espécie de boneca russa, formada por várias camadas, cada uma mais complexa do que a outra.

No centro de tudo está uma sensação física. Pode ser a aceleração do coração quando se encontra a pessoa amada ou o estômago apertado quando se está com raiva.

O cérebro pode, então, catalogar esses sentimentos para que você saiba se é algo bom ou ruim, forte ou fraco. As sensações começam a tomar forma e surge uma representação consciente da emoção. No fim, conseguimos atribuir palavras a elas.

Quando a alexitimia foi classificada pela primeira vez, em 1972, cientistas acreditavam que o problema estava nessa última fase de verbalização. Para eles, haveria uma falha na comunicação entre os dois hemisférios do cérebro, impedindo que os sinais das regiões emocionais, localizadas predominantemente no lado direito, chegassem às áreas de linguagem, do lado esquerdo.

“Você precisa dessas transferências emocionais para poder verbalizar o que está sentindo”, afirma Katharina Görlich-Dobre, pesquisadora do Departamento de Neurologia do Hospital Universitário de Aachen, na Alemanha.

Ao fazer imagens de ressonância magnética do cérebro de vítimas da alexitimia, a cientista descobriu que elas apresentam conexões inesperadamente densas nessa ponte neural. Para Görlich-Dobre, isso pode contribuir para que uma interferência impeça o cruzamento dessas informações emocionais.

Hoje, no entanto, está cada vez mais claro para os especialistas que existem muitos tipos de alexitimia. Enquanto alguns indivíduos têm dificuldade de expressar suas emoções, outros, como Caleb, não têm nem consciência destes sentimentos.

O psiquiatra Richard Lane, da Universidade do Arizona, acredita que uma explicação para o distúrbio é o fato de o circuito neural envolvido no processamento de emoções estar danificado, impedindo sentimentos como a tristeza, a raiva e a alegria de chegarem à consciência. “Talvez a emoção esteja ativada e a pessoa até tenha uma reação física a ela, mas não está ciente disso”, explica.

Problema de percepção

Alguns estudos recentes que usaram ressonância magnética para mapear o cérebro de vítimas do distúrbio, encontraram sinais de um problema básico de percepção. Görlich-Dobre descobriu menos massa cinzenta em áreas do giro do cíngulo, a região cerebral que controla a autoconsciência. Isso poderia bloquear uma representação consciente das emoções.

Já André Aleman, da Universidade de Groningen, na Holanda, detectou falhas em áreas associadas à atenção quando alexitímicos observavam imagens carregadas de conteúdo emocional. “Era como se seus cérebros não estivessem registrando os sentimentos”, explica.

O próprio Caleb descreve uma “desconexão da consciência” que impede que as emoções cheguem à sua mente. “Quanto mais intensa a emoção que eu deveria estar sentindo, mais meu pensamento fica claro e eu me torno mais analítico”, conta.

Para ele, sua situação tem um lado ligeiramente positivo: o de poder lidar melhor com procedimentos médicos, sem sentir medo nem ansiedade. (BBC)