Bancos fecham as portas em 36 cidades baianas, e moradores precisam viajar para sacar dinheiro

Sem bancos físicos, moradores enfrentam filas, informalidade e precisam viajar para sacar dinheiro; idosos e população rural são os mais afetados.

Entre outubro de 2023 e março de 2024, o Bradesco fechou agências e pontos de atendimento em 36 cidades da Bahia, segundo levantamento do Sindicato dos Bancários. O encerramento dessas unidades bancárias tem deixado milhares de moradores desassistidos, como ocorre em Olindina, no nordeste do estado, onde vivem cerca de 22,6 mil pessoas. A cidade perdeu a agência do Banco do Brasil em 2018 e agora também enfrenta o fechamento da única agência restante, do Bradesco, previsto para este mês. A situação se repete em Laje, São Felipe, Valente e Vera Cruz, recorrendo a Santo Antônio de Jesus ou Cruz das Almas, para realizar saques, pagamentos ou resolver pendências financeiras.

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“Me indicaram um ponto de saque, que funcionam assim: os moradores pagam alguma conta em determinado comércio da cidade. Aí chega uma outra pessoa que quer sacar, por exemplo, R$ 1 mil, e o ponto só tem R$ 500. É preciso esperar que entre mais R$ 500 de pagamentos para que o saque de R$ 1 mil seja autorizado”, disse Welinton Pinheiro ao Jornal Correio.

Com a ausência de agências, os moradores precisam recorrer à única casa lotérica da cidade, que enfrenta filas e não tem estrutura suficiente para atender à demanda.

“Temos só uma lotérica, que não tem estrutura nem capacidade para absorver essa demanda”, disse Welinton. A alternativa para os aposentados da cidade será viajar até Itapicuru, a 19 km de distância, onde ainda há uma agência bancária.

Em nota, o Bradesco informou à população de Olindina que os pagamentos de aposentadoria sejam transferidos para a Caixa Econômica Federal — que também não possui unidade no município.

Segundo o sindicato, além de Olindina, outras três cidades — Palmeiras, Rodelas e Ipecaetá — ficaram completamente sem agências bancárias porque o Bradesco era o único banco físico presente. Em Palmeiras, na Chapada Diamantina, o fechamento da unidade provocou protestos da população em abril. A agência mais próxima fica a 50 km do centro da cidade.

O diretor do Sindicato dos Bancários da Bahia, Ricardo Ornelas, afirma que o encerramento das agências faz parte de um plano nacional de corte de custos.

“Os bancos entendem que podem oferecer o serviço digital e reduzir seus custos, assim como os bancos digitais fazem. Mas o impacto social disso não vem sendo observado. A empresa deve cuidar do bem-estar das pessoas onde ela atua. Será que ao fechar a única agência de uma cidade, a empresa está cuidando?”, questiona.

Além do impacto social, há também o impacto no emprego dos trabalhadores bancários.

“Vemos um impacto violento nos nossos empregos, com um número significativo de dispensas. Se uma agência é fechada, e os funcionários realocados, ‘sobram’ dois gerentes gerais, dois supervisores… Então, vai ter dispensa”, relatou Ornelas.

Ele também destaca a exclusão digital de parte da população, especialmente idosos e moradores de áreas rurais, que têm dificuldade em acessar serviços online. Em Olindina, 21% da população tem mais de 55 anos. A precariedade da conexão de internet também dificulta o uso de aplicativos e pagamentos via Pix.

Lista das 36 cidades baianas onde o Bradesco encerrou agências ou postos de atendimento:

  • Antas

  • Banzaê

  • Sítio do Quinto

  • Coronel João Sá

  • Itaite

  • São Félix do Coribe

  • Javi

  • Ibitiara

  • Mucugê

  • Abaira

  • Barra do Rocha

  • Gongogi

  • Nova Soure

  • Itapicuru

  • Botuporã

  • Valente

  • Barrocas

  • Lamarão

  • Boninal

  • Cairu

  • Igrapiúna

  • Ibitiara

  • Wenceslau Guimarães

  • Laje

  • Adustina

  • Novo Triunfo

  • Heliópolis

  • Vera Cruz

  • Palmeiras

  • Rodelas

  • Ipacaetá

  • Serra do Ramalho

  • Serra Dourada

  • Inhambupe

  • Paripiranga

  • Paratinga

  • São Felipe

A redução no número de agências físicas acompanha uma tendência nacional. Em 2023, Bradesco, Itaú Unibanco e Santander encerraram 856 agências no Brasil. Só o Bradesco foi responsável pelo fechamento de 380 unidades. A justificativa é a digitalização do serviço bancário. “A nossa base de clientes cresceu em 2,1 milhões em 2024, e 99% das nossas transações foram feitas pelo digital”, disse Marcelo Noronha, CEO do Bradesco, em coletiva de imprensa realizada em fevereiro.

Dados da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) confirmam a tendência: em 2023, sete a cada dez transações bancárias no Brasil foram realizadas pelo celular. O Pix foi o meio de pagamento mais usado, com 63,8 bilhões de transações em 2024.

Apesar disso, especialistas e órgãos de defesa do consumidor alertam que a digitalização não pode substituir completamente o atendimento físico, especialmente em áreas de difícil acesso. No Maranhão, uma decisão judicial suspendeu o fechamento de 16 agências do Bradesco em municípios do estado. A medida atendeu a um pedido do Procon maranhense.

Na Bahia, o Procon-BA também acompanha a situação. Em maio, representantes do órgão se reuniram com o Sindicato dos Bancários. O superintendente Tiago Venâncio afirmou que o caso poderá ser encaminhado ao Ministério Público estadual.

“Ainda não temos como manifestar uma possível manifestação antes de analisar todas as informações. Mas estamos fazendo essa análise para encaminhar ao Ministério Público para que ele também tenha ciência do que está ocorrendo e tomar medidas cabíveis”, disse. E concluiu: “Por mais que exista a informatização dos serviços, os consumidores não podem ficar desassistidos do serviço, principalmente no interior”.

Enquanto isso, moradores como Welinton se preocupam com o futuro.

“Estamos falando de pessoas idosas, de áreas rurais e povoados distantes, que não têm como se deslocar, que não usam aplicativo de banco, que recebem pouco e agora ainda terão que lutar para conseguir acessar seu próprio dinheiro.”

Fonte: Jornal Correio