O que pode estar por trás da queda no número de católicos e crescimento dos evangélicos em SAJ e no Brasil – por Léo Valente

Recentemente li a reportagem do Jornal da Unicamp sobre as “igrejas de garagem” e, ao cruzar com os dados do Censo 2022 do IBGE em Santo Antônio de Jesus — trazidos com exclusividade pelo Blog do Valente — percebo que estamos diante de uma transformação profunda da religiosidade local.

Foto ilustrativa: reprodução

No município, os números são claros: o percentual de católicos caiu de 53.793 pessoas em 2010 para 45.138 em 2022 (hoje correspondendo a 50% da população com 10 anos ou mais), enquanto os evangélicos cresceram de 19.872 para 25.565, chegando a 28,3%, acompanhando a tendência nacional .

A Unicamp destacou o “pentecostalismo marginal autônomo”: igrejas improvisadas em garagens, comandadas por moradores que unem fé e reconhecimento comunitário, florescendo nas periferias . Esse modelo informal ecoa pelo Recôncavo e aqui mesmo em SAJ, com templos surgindo na frente de casas, liderados por alguém da vizinhança, falando de forma próxima às dores e realidades locais.

No programa Levante a Voz, na rádio Andaiá FM, enfatizei que essas igrejas não estão “tirando” fiéis da Igreja Católica, mas sim ocupando um vazio — chegando em pessoas que se diziam católicas apenas por batismo, sem jamais ter acesso às missas por questões de hábito, rotina ou distância, ainda que as igrejas católicas estejam presentes por todo o país.

O modelo evangélico chega primeiro a quem estava invisível ao catolicismo: aquele jovem que dizia ser ‘católico’, mas nunca pisou numa missa, e agora encontra acolhimento à porta de casa.

Outro ponto crucial é o modelo de ordenação de liderança. Nas igrejas evangélicas, torna-se pastor, evangelista ou obreiro muito mais facilmente — sem exigência de estudos formais, sem seminários longos, sem hierarquia rígida. Muitos se autoproclamam pastores, começam com poucos vizinhos (6, 7 ou 10 pessoas) e assim fundam sua igreja na garagem de casa. Já na Igreja Católica, funções como celebrar missas, batizar ou casar são exclusivas aos padres, após formação teológica e ordenação formal — além da proibição de liderança sacerdotal feminina.

É importante destacar também o papel das grandes denominações, que alugam horários em TV e rádio aberta desde há muitos anos — como Igreja Mundial, Universal e Graça de Deus — frequentemente ocupando horários nobres. Com a crise no mercado fonográfico, muitas adquiriram emissoras de rádio. Nessa dinâmica, as mensagens ecoam nas periferias, mas a conversão muitas vezes não é diretamente para essas grandes igrejas. Muitas vezes o ouvinte encontra no pastor vizinho — com a mesma mensagem, porém com outra denominação — um canal real de pertença e acolhimento.

Esse movimento contribui para a presença feminina nas lideranças. Mesmo reconhecendo o trabalho fundamental das freiras e madres na Igreja Católica, não existe nela figura de mulheres celebrando missas ou batizando. Já nas evangélicas, bispas, pastoras e profetisas conduzem grandes cultos e exercem papel ativo, atraindo muitas mulheres.

Essas igrejas de garagem também abordam temas urgentes: vícios, violência doméstica, tráfico — realidades que afligem as famílias periféricas. Mães frequentemente afirmam:

“Prefiro ver meu filho trabalhando e ajudando na igreja, mesmo dando algum dinheiro, do que perdendo tudo para o tráfico.”

A presença midiática (rádio, TV e redes sociais), combinada com a atuação local, confere às igrejas de garagem alcance real, acolhimento imediato e dignidade a quem muitas vezes se sentia invisível.

Portanto, não se trata de captação predatória de fiéis, mas de um ministério de presença real, onde o jovem que “era católico” encontra seu lugar — não por culpa da Igreja Católica, mas porque outras vozes souberam se fazer ouvir.

Léo Valente