Apostas online adiam faculdade para 34% dos jovens e universitários chegam a trancar cursos por causa de gastos com bets, revela pesquisa

Levantamento mostra que 34% dos jovens deixam de iniciar a graduação por causa das apostas; 14% atrasam pagamento ou trancam o curso.

Uma pesquisa da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (Abmes), em parceria com o instituto Educa Insights, revelou que os gastos com apostas esportivas online estão interferindo diretamente no acesso à graduação. De acordo com o estudo O Impacto das Bets 2, divulgado em abril de 2025, 33,8% dos jovens apostadores adiaram o início da graduação em faculdades particulares por causa do dinheiro gasto com apostas.

Foto: REUTERS / Alexandre Meneghini

O estudo também mostrou que 34,4% dos participantes que pretendem estudar afirmam que só conseguem entrar na faculdade se pararem de apostar. Segundo o diretor-geral da Abmes, Paulo Chanan, os dados mostram que a situação está se agravando.

“Isso indica que o fenômeno se aprofunda e atinge, principalmente, os jovens das classes C e D. Trata-se de uma realidade relativamente nova no Brasil, que ainda precisa de amadurecimento por parte da sociedade e de uma regulação mais eficaz por parte do poder público”, declarou à Agência Brasil.

A pesquisa ouviu 11.762 pessoas entre os dias 20 e 24 de março, das quais 2.317 preencheram o questionário completo. Os jovens que participaram da pesquisa têm entre 18 e 35 anos, são de todas as regiões do país e de diferentes classes sociais.

Outro dado alarmante é o que mostra que 14% dos estudantes universitários já matriculados em faculdades privadas atrasaram mensalidades ou trancaram o curso por conta dos gastos com apostas online.

Efeitos no futuro da educação

Com base no Censo da Educação Superior 2023, a Abmes estima que quase 1 milhão de estudantes poderão ser afetados em 2026. Isso porque os gastos com apostas têm comprometido parte significativa da renda dos jovens.

“No longo prazo, o dado mais preocupante é a projeção para 2026: quase 1 milhão de potenciais ingressantes na educação superior privada podem não efetivar a matrícula devido ao comprometimento financeiro com apostas e jogos online”, afirmou Chanan.

O diretor do Educa Insights, Daniel Infante, acrescentou que as bets passaram a ser um novo concorrente pelo orçamento do futuro aluno.

“O estudo mostra que o mercado educacional ganha um novo concorrente pelo bolso do aluno potencial. Isto, aliado às mudanças regulatórias em curso, pode afetar significativamente o mercado potencial para o ensino superior privado no país”, avaliou.

A pesquisa revela que metade dos jovens entrevistados aposta com frequência semanal – entre 1 e 3 vezes por semana. Dentre esses, 41% são da região Sudeste e 40% do Nordeste. Além disso, 45,3% dos apostadores disseram gastar mais de R$ 350 por mês, número superior aos 30,8% registrados em 2024.

Apesar disso, houve queda entre os que afirmam não recuperar o dinheiro investido nas apostas. Em 2024, 30,3% disseram ter tido prejuízo total; em 2025, o número caiu para 22,9%.

O impacto também atinge outras áreas da vida dos apostadores. Entre os entrevistados, 28,5% deixaram de sair com amigos ou frequentar bares e restaurantes; 23,6% deixaram de investir em academias ou atividades físicas; e 20,9% cancelaram cursos de idiomas ou outras capacitações.

Embora não se oponha à regulamentação do setor de apostas no país, a Abmes defende que sejam adotadas medidas de controle, conscientização e políticas públicas educativas.

“A Abmes acredita que a solução para o problema precisa ser multissetorial. O enfrentamento ao impacto das bets deve se dar com responsabilidade e dados, promovendo discussões em fóruns educacionais e políticos”, destacou Chanan.

Entre as propostas da entidade estão campanhas educativas nas redes sociais, escolas e instituições de ensino superior para alertar sobre os riscos do uso excessivo das plataformas de apostas.