A ameaça de sanções dos Estados Unidos ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, reacendeu o debate sobre o controle e a operação do sistema de geolocalização por satélite (GPS) no Brasil. Entre as punições cogitadas por aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro, estaria o bloqueio do sinal de GPS no território brasileiro, o que levantou dúvidas sobre a viabilidade dessa medida.

De acordo com especialistas consultados pela BBC News Brasil, a possibilidade de corte ou bloqueio do GPS em um país específico é tecnicamente inviável, especialmente no curto prazo. O engenheiro Eduardo Tude, presidente da consultoria em telecomunicações Teleco, explica que os satélites do GPS transmitem sinais unidirecionais para todo o globo, sendo praticamente impossível isolar o Brasil sem afetar outras regiões.
“Esses satélites ficam transmitindo continuamente um sinal para todo mundo. É muito difícil bloquear isso para um país específico”, afirma Tude. Segundo ele, qualquer tentativa de restrição exigiria alterações profundas no modo de transmissão do sinal, além de ter efeitos colaterais globais.
O GPS, desenvolvido pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos, é um sistema originalmente militar que hoje oferece dois tipos de serviços: o Standard Positioning Service (SPS), voltado para usuários civis, e o Precise Positioning Service (PPS), reservado para os militares norte-americanos e aliados.
Embora os EUA mantenham o controle do sistema, medidas como o bloqueio total ou degradação do sinal são consideradas extremas e de difícil execução. Segundo a engenheira Luísa Santos, especialista em sistemas aerospaciais, os Estados Unidos têm a capacidade de interferir no acesso ao GPS em determinadas regiões, mas há barreiras políticas e diplomáticas que tornam essa possibilidade remota.
“Embora tecnicamente possível, acredito ser muito difícil por causa de questões diplomáticas de longo prazo entre os países”, avaliou Luísa.
Apesar da dificuldade em bloquear o GPS nacionalmente, existem técnicas de interferência local, como o jamming, que emite sinais de rádio para prejudicar a recepção dos satélites. Esse tipo de bloqueio já foi usado por países em zonas de conflito, como a Rússia durante a guerra na Ucrânia.
Outra técnica é o spoofing, que consiste em enganar o receptor GPS com sinais falsos. Ambas as ações, no entanto, são consideradas atos de sabotagem e exigiriam presença física no território onde se pretende aplicar a interferência.
Uma eventual interrupção do GPS traria impactos severos a setores como aviação, logística, telecomunicações, energia e serviços financeiros. No entanto, o Brasil e outros países já utilizam sistemas alternativos de posicionamento, como o europeu Galileo, o russo GLONASS e o chinês BeiDou. Muitos dispositivos modernos são compatíveis com múltiplas constelações de satélites, o que reduz a dependência exclusiva do GPS.
“Embora improvável, tecnicamente os Estados Unidos poderiam restringir ou degradar o sinal civil do GPS em determinadas regiões. Mas o mundo não ficaria no escuro“, explica a astrofísica Ana Apleiade, da USP. “O GPS não é mais o único sistema disponível.”
Segundo os especialistas, ainda que o controle do GPS continue sendo uma ferramenta de poder geopolítico dos Estados Unidos, qualquer medida extrema nesse sentido teria repercussões diplomáticas e econômicas consideráveis — e, por isso, permanece no campo da especulação.




