Foi divulgado nesta quinta-feira (24) o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025, com destaque para o ranking das 20 cidades mais violentas do país. E, mais uma vez, o nome de Santo Antônio de Jesus aparece na lista — agora na 17ª posição, depois de já ter figurado no incômodo 2º lugar em edições anteriores.

Há quem comemore a “queda de posição” como se fosse um sinal de melhora. Mas o problema maior está no que não se discute: o critério adotado e, sobretudo, a forma como ele é explorado pela imprensa nacional.
G1, UOL, Jornal Nacional e outros veículos estampam manchetes com a expressão: “as cidades mais violentas do Brasil”. Mas será que esse título se sustenta na prática? É justo chamar Santo Antônio de Jesus ou Jequié de mais violentas do que o Rio de Janeiro?
Qualquer cidadão minimamente informado sabe que há regiões no Rio onde o tráfico dita regras, onde o botijão de gás só entra com autorização do crime, onde provedores de internet são expulsos por facções, e onde moradores não conseguem sequer circular livremente à noite. Situações semelhantes ocorrem em partes de Salvador. Mas essas capitais, por critérios técnicos da pesquisa, nem aparecem no ranking.
O que o anuário mostra, de fato, são as cidades com maior taxa de mortes violentas intencionais (MVI) por 100 mil habitantes. Só isso. Nenhum dado sobre estupros, sequestros, assaltos à mão armada, milícias, extorsões ou desaparecimentos. Nenhuma menção ao controle territorial exercido por grupos armados. É um recorte estatístico importante, sim, mas não pode ser traduzido como um retrato absoluto da violência.
O mesmo levantamento aponta que as mortes em cidades baianas têm uma participação policial muito maior do que em outros estados. Em Jequié, um em cada três homicídios foi cometido por um policial. Em Simões Filho, um a cada quatro. No Ceará e em Pernambuco, esse índice cai para 2% ou 3%, respectivamente. Esses dados reforçam que os números têm contextos distintos — e não podem ser comparados de forma rasa.
Além disso, o perfil das vítimas é reiterado: homens, jovens, negros e moradores de periferias. Cerca de 73% foram mortos por armas de fogo. Uma realidade dura, que exige políticas públicas sérias, mas que não autoriza transformar cidades inteiras em estigmas ambulantes.
Não se trata aqui de negar a gravidade dos homicídios. Santo Antônio de Jesus, como tantas outras cidades da Bahia, tem problemas reais que precisam ser enfrentados com urgência. Mas também é preciso ter responsabilidade com a narrativa. Chamar essas cidades de “as mais violentas do Brasil” é irresponsável, desonesto e injusto com a população trabalhadora que vive nelas.
É preciso, sim, dizer: essas são as cidades com maiores taxas de assassinato por 100 mil habitantes. Isso é fato. Mas ir além disso é cair na armadilha do sensacionalismo — e colaborar com uma imagem distorcida que só alimenta preconceitos e afastamento.
Santo Antônio de Jesus não é um paraíso. Mas também não é — e nunca foi — mais violenta que o Rio de Janeiro. E nenhuma manchete simplista vai nos convencer do contrário.




