
Embora 91% dos brasileiros afirmem que o diálogo é a melhor forma de educar uma criança, quase metade admite recorrer à violência física. É o que mostra uma pesquisa inédita do Instituto Futuro é Infância Saudável (Infinis), em parceria com a Quaest, divulgada nesta semana.
O levantamento revela que 49% dos entrevistados afirmam já ter dado tapas em uma criança, enquanto 62% dizem ter gritado durante a educação dos filhos ou de menores sob sua responsabilidade.
O estudo entrevistou 2.202 pessoas com 18 anos ou mais entre os dias 29 de maio e 7 de junho, em 128 municípios brasileiros. A margem de erro é de dois pontos percentuais, com nível de confiança de 95%.
Esta é a segunda edição da pesquisa “Atitudes e percepções sobre a infância e violência contra crianças e adolescentes”, que também investigou, pela primeira vez, a percepção da população sobre segurança nas escolas.
Em comparação com a pesquisa realizada em 2023, o percentual de adultos que admitem ter dado tapas em crianças passou de 52% para 49%, variação considerada estável dentro da margem de erro.
Já o número de pessoas que afirmaram ter utilizado objetos para bater caiu de 38% para 27%.
Outro dado chama atenção: 65% dos entrevistados disseram ter sofrido agressões físicas durante a infância, indicando a permanência de um ciclo intergeracional de violência.
A pesquisa também aponta que 62% dos brasileiros não interfeririam caso presenciassem uma criança recebendo palmadas ou puxões de orelha em um espaço público.
Segundo especialistas, o resultado demonstra que, embora o discurso contrário à violência tenha avançado, mudanças efetivas no comportamento das famílias ainda acontecem de forma lenta.
Para Márcia Kalvon, diretora executiva do Infinis, existe uma diferença significativa entre o que as pessoas defendem e o que praticam.
“O que mais chama atenção é a distância entre o que as pessoas dizem e o que fazem. A maioria reconhece que o diálogo é a melhor forma de educar, mas, na prática, ainda recorre a gritos, tapas e outras formas de violência.”
O CEO da Quaest, Felipe Nunes, também destaca que parte da população ainda normaliza a violência física como método educativo.
“Os brasileiros dizem acreditar que o diálogo é a melhor forma de educar, mas acabam naturalizando a violência física contra crianças. Além disso, boa parte considera normal não reagir quando presencia uma agressão.”
Os dados mostram ainda que:
91% consideram inaceitável xingar ou ofender uma criança;
79% rejeitam agressões com objetos;
64% consideram inaceitável ameaçar bater;
Apenas 51% classificam um tapa com a mão como uma prática inaceitável.
Os resultados reforçam que, apesar do avanço da conscientização sobre formas positivas de educação, a violência física ainda permanece presente na rotina de muitas famílias brasileiras.


