
Medicamentos à base de semaglutida, como o Ozempic, utilizados no tratamento do diabetes tipo 2 e para perda de peso, têm sido associados a uma série de alterações na saúde bucal. Entre as queixas mais frequentes estão boca seca, mau hálito, mudanças no paladar e maior sensibilidade dos dentes, efeitos que já ganharam apelidos nas redes sociais, como “boca de Ozempic” e “hálito de Ozempic”.
Segundo especialistas, a manifestação mais comum é a redução da produção de saliva, condição conhecida como xerostomia. A cirurgiã-dentista Jennifer L. Thompson, presidente do Conselho de Prática Odontológica da Associação Dental Americana, explica que a boca seca pode favorecer o desenvolvimento de mau hálito, aumentar o risco de cáries, doenças na gengiva e provocar alterações no sabor dos alimentos, que passam a ser percebidos como metálicos ou amargos.
Pesquisas apontam que um dos principais fatores por trás dessas alterações é o retardo no esvaziamento do estômago e do intestino, efeito característico dos medicamentos agonistas do GLP-1. Com os alimentos permanecendo por mais tempo no sistema digestivo, ocorre maior fermentação e proliferação de bactérias, favorecendo a produção de gases com odor de enxofre, responsáveis pelo chamado “hálito sulfuroso”.
Outro fator que pode contribuir para os problemas bucais é a ocorrência de refluxo e episódios de vômito, efeitos colaterais relatados por parte dos usuários. O contato frequente do ácido estomacal com os dentes pode provocar desgaste do esmalte, além de intensificar o mau hálito.
Estudos também sugerem que a semaglutida pode atuar diretamente nas glândulas salivares, reduzindo a secreção de saliva. Como a saliva desempenha papel fundamental na limpeza da boca e na neutralização dos ácidos produzidos pelas bactérias, sua diminuição favorece o acúmulo de microrganismos e aumenta o risco de inflamações, cáries e doenças periodontais.
As mudanças no paladar ainda são objeto de investigação, mas pesquisadores acreditam que o GLP-1 também participa dos mecanismos cerebrais relacionados à percepção dos sabores e à recompensa alimentar. Isso pode explicar por que alguns pacientes passam a sentir menos prazer ao consumir alimentos doces e maior sensibilidade aos sabores amargos.
Apesar dos desconfortos, especialistas ressaltam que esses efeitos, isoladamente, não indicam necessariamente problemas gastrointestinais graves. No entanto, sintomas persistentes ou acompanhados de dores e alterações digestivas devem ser avaliados por um médico.
Para reduzir os impactos na saúde bucal, a recomendação é manter uma boa higiene oral, com escovação por pelo menos dois minutos, uso diário do fio dental e hidratação frequente. Gomas de mascar ou pastilhas com xilitol também podem estimular a produção de saliva. Em casos mais severos, o tratamento pode incluir medicamentos específicos, sempre com orientação médica.
Nos episódios de refluxo ou vômito, dentistas orientam que a pessoa enxágue a boca com água e aguarde cerca de 30 minutos antes de escovar os dentes, evitando danos ao esmalte. O uso de creme dental com flúor e zinco, raspadores de língua e enxaguantes bucais fluoretados também pode ajudar a controlar o mau hálito.
Os especialistas reforçam que esses efeitos colaterais raramente justificam a interrupção do tratamento com semaglutida, mas destacam a importância do acompanhamento médico e odontológico para preservar a saúde bucal durante o uso da medicação.


