Patrícia Nuno: Envelhecer. Prever e escolher.

Quando escolhi, aos 23 anos de idade, abraçar a carreira de Delegada de Polícia Civil, não pensei em salário, em condições de trabalho, de ambiente, em aposentadoria ou qualquer outra circunstância que viesse a acompanhar o meu único desejo: combater o crime com coragem e inteligência. Vinte anos depois, no caminho de uma nova graduação pela Psicologia, mergulho numa reflexão sobre hipótese que vai se concretizando com inevitável êxito no campo da matéria: o envelhecimento. Contemplo o tempo.

Costumo dizer pra tudo que o problema está na falta de organização. Problema de quê? De tudo, ora bolas!! Da lista do supermercado, da arrumação das gavetas de casa, dos exames de saúde, da agenda de compromissos, dos projetos, de toda a vida!!

Na correria própria da juventude, organizamo-nos para o próximo final de semana, o que temos para fazer, trabalho e lazer, almoço de família, missa, cinema, leitura ou dar conta do relatório atrasado. São as coisinhas do dia a dia que preenchem a mente e vão nos impulsionando para frente. Com muito esforço nos preparamos para a próxima estação, principalmente quando chega o Verão e traz passeios, viagens, a descontração extra que torna mais pesado o orçamento.

Em raras oportunidades em que a correria cede à previsão, voilá, conseguimos!! Sobra mais tempo para fazer as coisas com calma, elaborar melhor, disfrutar mais, conquistar mais. Entretanto, somos imediatistas e deixamos tudo para a última hora.

Quando se trata da conta em atraso, das férias mal programadas, até do relatório pendente, tudo bem porque as consequências são superáveis; só não tem jeito para a morte. Mas aí é que vem a questão. Imediatistas, não nos programamos para o desgaste generalizado que o tempo nos impõe, porque simplesmente não aceitamos e, assim, evitamos pensar na morte.

Dessa forma, seguimos caminhando serelepes pelos campos do improviso, que as vezes dá certo conduzindo-nos a um final feliz. Que sorte! Mas alguém está preparado para lidar com a aproximação da morte? Primeiro passo é aceitar, com serenidade, as mudanças que não logramos conter ao envelhecer.

Segundo, é identificar e escolher as circunstâncias que estão ao nosso alcance programar. Onde queremos estar, ao lado de quem, amores, amigos, fazendo o quê, em que estado de saúde física e mental? Respondidas, em linhas gerais, as questões traçadas pelo livre arbítrio, é tempo de arregaçar as mangas e perseverar na organização da nossa felicidade e bem-estar futuros; ter coragem para renunciar o que possa significar adorno por breves instantes em prol da qualidade que aquilo lhe venha trazer no final, como essencial ou necessário.

É difícil cuidar da saúde, adotar dieta regrada e livrar-se de vícios, hábitos negativos e conceitos engessados? Sim! Também é difícil cuidar das relações, ter paciência; cuidar do orçamento, previdência; do desenvolvimento de capacidades que possam nos garantir sustento até o ultimo fôlego de vida, fonte de renda e gratificação pessoal. Mas quanto antes planejar e começar a empreender esforços efetivos em prol do projeto velhice, melhor! O certo é que, com previsão e organização, sobra mais tempo para fazer as coisas com calma, elaborar melhor, disfrutar mais, conquistar mais e começar tudo outra vez se assim o desejar.

A todos, paz, serenidade, coragem e sabedoria.

* Patrícia Nuno é delegada de Polícia Civil da Bahia e estudante de Psicologia