Veja relato comovente de quem lutou e se livrou das drogas

Por que nós precisamos de drogas? Esta pergunta foi feita por um site americano ao Dr. Carl Hart, primeiro cientista afro-americano titular na Universidade de Columbia, onde é professor associado dos departamentos de psicologia e psiquiatria, sobre as relações sociais e econômicas com o consumo dedrogas. ?Deixa as pessoas mais interessantes, diminui a ansiedade. O álcool é associado com um grande leque de efeitos benéficos à saúde – diminui a chance de doença no coração, de infartos. O mesmo pode ser dito da maconha – ajuda as pessoas a dormir melhor, pode combater a ansiedade?, respondeu revelando ter uma visão totalmente diferente e inovadora para os padrões científicos amplamente difundidos na grande mídia.

Os resultados de suas pesquisas sobre o consumo de drogas o levaram a se sentir chocado pelo fato de ter descoberto que de 80% a 90% das pessoas que usam drogas como o crack ou a heroína não são viciados. ?Na verdade, eu tenho estudado as drogas há 23 anos; e por 20 acreditei que as drogaseram o problema das comunidades. Mas quando eu comecei a olhar com mais cuidado, quando comecei a olhar as evidências de maneira mais cuidadosa, ficou claro para mim que as drogas não eram o problema. O problema era a pobreza, a política anti-drogas, a falta de empregos – um leque variado de coisas. E as drogas eram apenas um?, afirmou.

Em Salvador, este problema tem devastado a vida de muitas famílias e, em tempo de crise, pode se agravar, com o aumento da população de rua, estimada hoje em 20 mil, milhares dos quais viciados no álcool, crack e outras drogas. Para estes, tratamento gratuito na capital baiana existe apenas em três CAPS AD – Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas-: um localizado nos Pernambués, outro em Pirajá, e o Gregório de Matos, que é fruto da parceria entre a Secretaria de Saúde do Estado (Sesab) e a Universidade Federal da Bahia (UFBA), situado na Escola de Medicina, no Terreiro de Jesus. Já realizou a capacitação de profissionais de Salvador e vários municípios do estado, acolheu mais de 3 mil pessoas e atualmente conta com 647 usuários ativos.

?O tratamento aqui é dos melhores?, garante Carlos Alberto Tavares, 58, ex- metalúrgico, sobre o CAPS Gregório de Matos, um serviço docente-assistencial para pessoas que fazem uso abusivo de substancia psicoativo, bem como atendimento aos familiares dos pacientes. Além do acompanhamento a unidade realiza capacitação dos profissionais da rede de atenção básica e psicossocial dos municípios baianos.      

Com um sorriso de poucos dentes, depois de décadas viciado ?em cachaça, maconha e cocaína?, Tavares há dois anos diariamente bate ponto no CAPS da faculdade para receber orientações, medicamentos e desfrutar de atividades recreativas como, por exemplo, sessão de cinema compartilhada com os demais homens e mulheres vítimas das drogas que buscam cura e o retorno à vida longe do vício.

Histórias de superação inspiram muitos

Viúvo, pai de duas filhas, de 27 e 30 anos, Carlos Alberto entrou para o consumo do álcool com 15 anos, ainda estudante. ?Logo em seguida comecei com a maconha. A cocaína foi por último. Tudo isso acabou por arruinar a minha vida social e o meu relacionamento familiar. Há pouco tempo tive uma recaída com o álcool, mas foi no carnaval. Hoje sei do mal que me fiz e aconselho aos jovens não entrarem nesse caminho não, porque muitos vão e não voltam?, diz afirmando que, graças ao acolhimento que recebeu no CAPS hoje se sente bem melhor. Josuel de Jesus Oliveira, 52, também é bem acolhido na unidade da faculdade de Medicina. Ele entrou para as drogas através do consumo inicial de cigarros. ?Depois veio a maconha e depois o crack. Aí que foi a minha derrota. Quando experimentei crack pela primeira vez eu tinha 31 anos. Mas, aí eu lutei, lutei e me libertei do crack. Trabalhava, mas depois do crack perdi o emprego e fui parar na rua, pois eu já não podia pagar o meu aluguel?.

Por sorte, certo dia Josuel de Oliveira – natural de Jequié, mas desde pequeno na capital – foi abordado na rua por técnicos da Secretaria Municipal de Promoção Social, Esporte e Combate à Pobreza (Semps), que realizam ações sociais diárias à população em situação de rua, principalmente em locais que concentram uma grande quantidade de indivíduos ocupando logradouros públicos. Os educadores sociais fazem a abordagem na tentativa de convencer estas pessoas a deixar a situação de vulnerabilidade social.?O serviço da prefeitura de Salvador me encaminhou para o albergue de Roma, aonde eu cheguei em 2011 e passei dois anos e meio. Saí de lá no final de  2013, já com auxílio aluguel. Hoje em dia eu moro  num quarto alugado e venho lutando para não ficar dependendo da droga.

Coisas da vida. Eu tive uma infância muito ruim, não foi legal. Meu problema já vem da infância. Passei uma temporada no Juizado de Menores também, fui menino de rua. Meu pai bebia muito, era vítima desta droga lícita que é a cachaça. Ele chegava bêbado e quebrando tudo dentro de casa, era uma tristeza e eu era criança. Minha mãe não aguentou foi embora e nós ficamos abandonados, eu, meu irmão e uma irmã, que uma madrinha levou, mas com os dois meninos ninguém queria ficar e aí nós fugimos e vivíamos  ali na Feira de São Joaquim durante o dia e na Calçada a noite, pra dormir em baixo das marquises?, relatou em tom de lamento.

Nesta época, início dos anos 70, a rotina de Josuel era carregar as compras ?de senhoras e senhores até o ponto de ônibus, em troca de alguns trocados. Hoje em dia estou aqui, com 52 anos deixando adroga, sei que não é legal, ninguém deve usar. Cigarro então, eu comecei a fumar com dez anos, e quando veio o crack, aí foi minha derrota mesmo, o fundo do poço.

Mas com ajuda da Bíblia, da palavra de Deus, fala-se muito em Jesus Cristo, esta parte religiosa me levantou muito. Eu peguei mais a fé, assim acreditando no que Deus quer de cada um de nós?, concluiu, acrescentando que agora faz curso para trabalhar com azulejos, oferecido pelo projeto Corra Pra o Abraço, do município, e no CAPS continua fazendo tratamento para ?deixar de fumar cigarro e maconha, meus únicos problemas. São as duas substâncias que eu não conseguir largar, a nicotina e o THC da maconha. Eu acho que o cigarro é mais fácil de largar, pois já me faz mal a saúde. A maconha me acalma também, me faz dormir, abre o apetite, mas eu queria largar também, pela parte religiosa, o que diz a Bíblia, a sabedoria, Jesus Cristo, que não é bom que você use certas substâncias para o seu corpo, até a maconha mesmo?.   

Especialista explica as razões do vício

O doutor Hart diz que as pessoas se viciam por muitas razões. ?Algumas possuem outras doenças psiquiátricas que contribuem com seu vício em drogas. Outras ficam viciadas porque esta é a melhor opção disponível a elas; outras porque têm poucas capacidades limitadas para assumir responsabilidades. As pessoas se tornam viciadas por um leque muito diverso de razões. Se nós estivéssemos de fato preocupados com o vício em drogas, nós estaríamos tentando entender precisamente o porquê as pessoas se tornam dependentes. Mas não é nisso que estamos interessados. Nesta sociedade nós nos interessamos em  maldizer  as drogas. Dessa forma, não temos de lidar com os problemas sociais mais complexos que transformam as pessoas em dependentes químicos?, afirmou na entrevista ao site americano. O filho de M.A, 64, é um dependente químico que tem levado a mãe à beira da loucura com surtos psicóticos.

A reportagem da Tribuna a encontrou desesperada no início de tarde no CAPS de Pirajá, buscando ajuda para acalmar M.D. 33, que havia sido abordado com uma faca na cintura enquanto andava sem destino pela Praça da Piedade e, depois, escapado em correria na direção do Canela, se refugiando no Centro de Estudos e Terapia de Abuso de  Drogas. ?Ele bebeu muito estes dias e isto agravou o estado dele. Ele tem esquizofrenia. Ele estava aqui agora, mas fugiu?, disse a dona de casa, mãe de dois outros filhos, que foi pedir o apoio da equipe técnica da unidade, mas não encontrou o remédio ?Depackne?, que o filho precisava tomar para controlar o transtorno bipolar. ?A vida dele está em risco. Há dias que ele não come nada?, disse M.A, em prantos e lamentando não haver, naquele momento, nem um psiquiatra e nem neurologista de serviço.  

A psicóloga Alessandra Tranquile, do Cetad, foi quem conduziu, em seu próprio carro, M.D. do Canela para Pirajá. A propósito, o doutor Hart naquela entrevista faz analogia com os automóveis: ?Nos anos 1950, o número de acidentes de carro eram relativamente altos. Foram instituídas medidas: cinto de segurança, limite de velocidade, etc. Os acidentes diminuíram sensivelmente. Se as pessoas estão preocupadas com os perigos da maconha, nós podemos ensiná-las como usar de forma mais segura. Outra coisa que eu descobri foi que se dermos alternativas às pessoas – como empregos – elas não abusarão das drogas como fazem. Descobri isso no laboratório com humanos assim como com animais?.

Mas, voltemos para a psicóloga baiana que no Cetad atende jovens, homens e  mulheres envolvidas com o consumo de drogas.  ?A gente oferece tratamento ambulatorial, acompanhamento psiquiátrico, psicológico, temos grupos terapêuticos, que escutam este sofrimento e vão identificar quais são as ofertas que agente pode dar pra esse sujeito?, relata Alessandra, para quem as dificuldades da rede de assistência para essa gente ?é grave, séria, e não é só em Salvador. (Tribuna da Bahia)