Brigão, Geddel Vieira Lima cuidará das relações de Temer com o Congresso


O novo ministro chefe da Secretaria de Governo, Geddel Vieira Lima (PMDB-BA), 57, costuma não fugir das brigas. Em pelo menos uma vez, literalmente.
Em maio de 1992, segundo a vítima e um colega parlamentar, Geddel abriu com um soco o supercílio direito do deputado federal José Falcão (PFL-BA) durante uma discussão no Congresso sobre o então governador baiano Antonio Carlos Magalhães (1927-2007), cacique pefelista e desafeto da família Geddel.

Falcão tinha 61 anos e Geddel, 33. Ele na época negou o murro, disse que houve só “um gesto de defesa”.

“Meu irmão tem pavio curto. Mas não é que ele agride, ele responde às agressões. Agora está mais maduro. Não é que o pavio se alongou, agora demora mais para acender”, diz o deputado Lúcio Vieira Lima (PMDB-BA).

Na sexta-feira (20), Geddel se autodefiniu para a Folha como alguém “que tem posição”. “Gosto de polêmica. Não gosto é de agressões. Eu sou do jeito que eu sou. Eu me defino como uma pessoa afirmativa. Não enrolo nem engano. Quando você diz ‘não’, também é uma solução”, disse o ministro.

Até poucos dias atrás, Geddel também não fugia de pugilatos verbais quando provocado em uma rede social. De “otário” e “bobinho” são chamados alguns dos seus 21 mil seguidores que atacam suas posições políticas.

Ciro Gomes (PDT-CE) é um “parlapatão babaca”. O governador afastado do Rio, Luiz Fernando Pezão (PMDB), faz “um governo medíocre” e o prefeito carioca Eduardo Paes (PMDB) é um “nômade partidário”.

Quando o ator e militante petista José de Abreu indagou se Geddel “iria para a cadeia”, ele retrucou: “Só se for para visitar sua mãe”. Abreu respondeu que ela morrera cinco anos atrás. Geddel acelerou: “Deve ter sido de desgosto por ser sua mãe”.

Às vezes Geddel mostra um lado mais sensível e solidário. Ele saiu, por exemplo, em defesa de dois amigos: “Hoje vejo todo mundo esculhambando Marcelo Odebrecht e Léo Pinheiro [executivo da OAS]. [Eu] os conheci como grandes empresários que contribuíram com a Bahia”.

PAZ E AMOR

A ligação de Geddel com a Odebrecht já lhe rendeu um grande dissabor. Quando a CPI do Orçamento encontrou, em 1993, disquetes de computador na casa de um diretor da empreiteira, Ailton Reis, lá estava o nome de Geddel, junto com outros nove colegas, em uma planilha ao lado de cifras. Geddel, que segundo um peemedebista derramou lágrimas no Congresso ao negar as suspeitas, acabou inocentado pela CPI.

A poeira começou a assentar no octógono tuiteiro de Geddel a partir do afastamento de Dilma Rousseff. Agora o ministro quer ser visto como um político “paz e amor”.

“Na posição que o destino me colocou e diante do momento em que vive o Brasil, tenho que ser firme na ação, não incendiário na retórica”, refletiu o baiano de Salvador.

Ele repetiu o mantra à Folha. “Não posso ser, no governo, a mesma pessoa que sou na oposição.”

Não é para menos. Geddel exerce um papel delicado nas negociações do governo com o Congresso. Ele e seu irmão Lucio dizem que etem recebido entre 40 e 50 deputados por dia e trabalhado das 6h até, algumas vezes, as 2h do dia seguinte.

Geddel tem longa experiência no trato com parlamentares, tendo sido, durante sete anos na década de 1990, líder da bancada do PMDB na Câmara. Ele nega integrar qualquer “grupo” relacionado ao presidente afastado da Câmara, Eduardo Cunha (RJ) e diz que “nunca” foi amigo dele. Indagado, porém, se não acha que o partido já deveria ter punido Cunha, Geddel relativiza: “Não acho nada, não sou juiz”.

Durante o segundo mandato de Lula na Presidência (2007-2010), foi ministro da Integração Nacional. No governo Dilma, que depois ajudou a derrubar, Geddel foi um dos vice-presidentes da Caixa. Também havia apoiado a gestão de Jaques Wagner (PT-BA) no governo da Bahia, mas a partir de 2009, após desavenças, o grupo peemedebista foi quase todo removido da administração petista.

De 2009 para cá, Geddel perdeu as duas eleições que disputou: para governador em 2010 e para senador em 2014. Os revezes devem ter incomodado muito a ele, que tem ligações umbilicais com o poder desde os anos 80, como herdeiro político direto de seu pai, Afrísio, ex-deputado estadual e federal.

Em governos distintos, Geddel personificou a imagem do PMDB faminto por cargos. Em 1992, ameaçou o presidente Itamar Franco. “Ou o presidente define as nomeações ou joga o PMDB para fora do governo.” Anos depois, Itamar o chamou de “percevejo de gabinete”.

Também bateu de frente com ACM que, em carta dirigida ao então presidente FHC, levantou dúvidas sobre seu patrimônio (em 2014, Geddel declarou bens no valor de R$ 6 milhões).

O grupo de ACM produziu e distribuiu uma fita de vídeo intitulada “Geddel vai às compras”. Em resposta, Geddel mandou fazer outro vídeo, “A casa do artista”, que abordava a construção de uma mansão de ACM.

O problema com ACM era antigo e tem a ver com outro pugilato. O pai de Geddel, Afrísio, que morreu em janeiro passado, foi carlista. Porém, no final dos anos 70, ele e o líder pefelista romperam.

Diz o folclore político que ACM, no auge de uma discussão, pegou Afrísio pelo colarinho que, em resposta, saiu no braço com o pefelista.

Pelo visto, o gosto pela briga persegue os Vieira Lima. Mas as coisas mudam na política. Hoje, o prefeito de Salvador, ACM Neto (DEM), é aliado de Geddel.