Xingado por citar Marielle na missa, padre pede restabelecimento do diálogo

Foto: Guilherme Pinto / O Globo

Xingado por dois homens após citar a vereadora executada Marielle Franco (PSOL) durante a missa de domingo na Paróquia da Ressurreição, em Ipanema, na Zona Sul do Rio, o padre Mario de França Miranda, de 81 anos, atribuiu nesta segunda-feira a reação à radicalização da sociedade. E disse acreditar que a solução está no restabelecimento do diálogo. O caso foi revelado pelo colunista do GLOBO Ancelmo Gois.

 — O problema é muito complexo. É muito difícil, hoje, emitir uma opinião clara e transparente. O problema é (a falta de) diálogo; a sociedade (precisa) esquecer seus partidos (e dialogar). Não é fácil, porque significa ceder um pouco, escutar o outro — afirmou ele, que é professor emérito de Teologia da PUC-Rio.

De acordo com o padre, a polarização ameaça a democracia. A partir dos extremos, diz ele, podem surgir regimes totalitários de diferentes correntes ideológicas:

— Esse episódio mostra um pouco a situação que estamos vivendo. As posições estão muito radicalizadas, tanto de um lado quanto de outro. O pessoal não ouve outra opinião. Isso é um perigo para a democracia, porque permite que venha uma ditadura de direita ou de esquerda.

O pároco explicou ao GLOBO que terminava a homilia no último domingo quando citou a vereadora — entre outras personalidades, como dom Oscar Romero e Martin Luther King. Ao citar a parlamentar, foi hostilizado por dois homens, num público de, aproximadamente, 500 pessoas.

O padre Mario de França minimizou o incidente. Disse que foi algo “muito pequeno” para o universo total de presentes no local. E acrescentou que não seria justo prejudicar a todos por causa de apenas duas pessoas. Por isso, disse, “tocou a missa” em frente.

Ainda de acordo com o religioso, a citação à vereadora Marielle Franco na Paróquia da Ressurreição não teve conotação política. Isso porque a luta por uma sociedade mais justa deve ser um ideal cristão, e não uma missão partidária.

— O que Cristo fez foi lutar por uma sociedade mais justa. Quando temos exemplos de pessoas que lutam por aí, elas estão fazendo o que Deus faria também: lutar por uma sociedade mais humana, com menos desigualdade — disse ele, que ainda acrescentou:

— O que falei estava dentro do Evangelho. Estava falando de alguém que era preocupada com negros, pobres… Se isso não é Evangelho, não sei o que pode ser.

Para o padre, a morte não significa necessariamente um “fim”, porque pode ser “extremamente fecunda”. Ele argumenta que foi isso que aconteceu com Jesus. Na avaliação do religioso, algumas mortes podem impulsionar lutas e ideais.

— Mataram Jesus Cristo precocemente, mas mudou a história da sociedade. Deu frutos enormes.

Mario de França também criticou o crescimento das desigualdades sociais. Na visão dele, é dever cristão buscar um mundo mais igualitário. E isso deve ser buscado globalmente, já que o problema afeta o mundo todo.

— Está no trabalho de Jesus ensinar o perdão, transformando a convivência humana numa convivência fraterna. Como ser feliz se as pessoas passam fome e matam imigrantes para fabricar mais armas? O problema hoje é planetário e todos devem cooperar. Apesar de todas as conquistas da razão e da tecnologia, a desigualdade aumenta — disse.

O padre também comenta que o pano de fundo para o aumento da desigualdade está no crescimento econômico a qualquer custo. Ele argumenta que o investimento financeiro em locais menos favorecidos pode ajudar a impulsionar a economia local, gerar renda, empregos e reparar injustiças sociais.

— Se jogar dinheiro em países mais pobres, a economia gira. Quando o governo (brasileiro) fez isso, o país cresceu — disse ele, que lamentou o momento de violência e penúria financeira pelo qual o Rio passa:

— Sou carioca, estou com quase 82 anos e nunca viu uma situação como essa. Estão todos com medo. Limparam o estado. A gente se acostumou a ouvir barulhos de tiros. Há roubos de cargas. E as firmas estão indo embora, o que vai empobrecendo o Rio e diminuindo os empregos.

*O Globo