
O professor universitário Jésus Gomes está em isolamento em seu apartamento em São Paulo com a família. Com as aulas feitas à distância, ele ficou ainda mais próximo do filho de 13 anos, Victor* (a identidade do filho não será revelada para proteção), que, segundo o pai, é mais que um filho, é um amigo. Certo dia, no mês de junho, ele notou que o menino estava cabisbaixo por muito tempo, o que seria atípico para a personalidade extrovertida dele. Ao ser perguntado sobre o que havia acontecido, ele mostrou uma conversa de um grupo de colegas do colégio Boni Consilii, na qual ele recebeu um comentário racista. “Preto não presta”, disse um colega de turma.
“Encontrei ele no quarto com um olhar perdido e falei para abrir o jogo comigo. No dia seguinte entrei em contato com a escola e fui na delegacia fazer um boletim de ocorrência”, explica Gomes à Marie Claire. No dia 15 de junho, um dia após o ocorrido, ele registrou um B.O. de injúria racial.
Em postagem nas redes sociais, o pai deu atualizações sobre o andamento da denúncia: “O B.O. foi despachado para a 2ª Vara da Infância e Juventude, No dia 26 de junho o Ministério Público acolheu o conteúdo do B.O. e opinou pela instauração de procedimento. O juiz acolheu a manifestação e determinou a instauração de processo para apurar o ato infracional e oficiou a Ordem dos Advogados do Brasil para acompanhar o caso. A audiência está pendente devido à pandemia da Covid-19.”
Mas punição não é a solução definitiva que o pai buscava para o caso. Ele conta que se o colégio tivesse aproveitado a oportunidade de conversar com os pais do menino que agrediu seu filho, seria uma medida mais eficiente. “Eu conversei com a escola diversas vezes. Eu acho que o racismo é um problema estrutural na sociedade brasileira. Meu filho foi vítima desse garoto e esse garoto foi vítima da educação brasileira. Lógico que ele não nasceu racista. Esse menino ouviu isso, não sei se na família ou de amigos próximos, mas racismo é uma coisa que se aprende em sociedade”, conta.
Gomes relata que entrou em contato com o colégio para criar um projeto de combate ao racismo, que, no primeiro momento, foi bem recebido. Porém, dois meses depois, não houve retorno e nenhum tipo de abordagem sobre o tema nas aulas, de acordo com o adolescente. Os outros três filhos de Gomes, de 31, 27 e 25 anos, também estudaram no Boni Consilii.
“Minha primeira postura com a escola foi dizer que é um problema estrutural, diluído na cultura. Sempre acho que tem que haver um aprendizado, sou contra o punitivismo. Eu já tive que lidar com casos de racismo em sala de aula e tenho contato com pessoas do movimento negro por conta da minha filha. Fiquei na animação total. Achei que poderia virar uma oportunidade de fazer um trabalho legal na escola para combater o racismo”, conta.
O menino recebeu mais uma mensagem do mesmo colega, dessa vez em tom de ameaça. Victor postou uma foto no status do WhatsApp, de acordo com o pai, com uma mensagem genérica, não dirigida a ninguém, sobre racismo. A resposta recebida foi a seguinte: “Vai calar a boca? Ou vou ter que mandar assaltarem tua casa inteira.”
“Eu achei isso um desaforo. Por que esse menino está encorajado, empoderado a fazer isso? Por que a escola não agiu? Fui para as redes sociais porque, senão, nada seria feito”, explica. Gomes reforça que acha que uma boa conversa e projetos dedicados a prevenir esse tipo de comportamento são mais eficazes. “A punição sempre deixa na pessoa um profundo sentimento de rancor e de vingança”, diz.
A direção do colégio Boni Consilii se posicionou ontem (13) por meio de nota enviada aos pais dos alunos, na qual afirma que a opção de uso de redes sociais é de responsabilidade de cada família e que o ocorrido foi “entre entre adolescentes em suas redes sociais”.


A reportagem entrou em contato com o diretor pedagógico do Boni Consilii, Ascanio João Sedrez. Ele destaca a “necessidade imperiosa” de tratar nas escolas, nas famílias e na sociedade a “ampla extensão de possibilidades de discriminação ou violência em função das diferenças entre humanos, com previsão explícita na legislação brasileira, especialmente em relação à raça, cor, origem nacional, religião, gênero, entre outras”.
Sedrez acrescenta que a sugestão do trabalho de combate ao racismo oferecido por Jésus Gomes veio em momento oportuno, mas que não foi implementada por conta do ensino à distância. “A temática da discriminação e de suas terríveis consequências permeia todo o currículo da Escola e será esta ênfase que continuará a ser mantida. Não estava descartada, em nenhum momento, a contribuição oportuna do Sr. Jésus. O ensino remoto, porém, limita algumas ações neste momento, infelizmente”, diz.
Marie Claire


