Retorno às aulas não é responsabilidade da família, diz Fiocruz

Hermano Castro, diretor da ENSP/Fiocruz (Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz), afirmou hoje que as famílias não podem ser responsabilizadas pela escolha de retomada dos alunos às aulas. No final de julho, o Conselho Nacional de Educação, órgão ligado ao MEC (Ministério da Educação), recomendou que o controle de frequência dos estudantes seja flexibilizado e que os pais possam escolher sobre o retorno dos filhos às escolas.

“A gente não pode transferir essa responsabilidade para a família. É um crime do Estado fazer isso. Nós cometemos esse mesmo erro no começo da pandemia. Eu, como médico pneumonologista, alertava que não dá para transferir para a família, principalmente a de baixa renda que não tem médico para chamar de seu, ‘caso leve, fica em casa’. Uma coisa é que ‘caso leve, fica em casa’ numa família da Europa; outra, é para uma família da favela, que não tem a menor condição de saber qual momento se leva pra uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento)”, disse ele ao UOL.

Aulas. “Ela não vai tomar baseada na saúde, não é pela preservação da vida. Isso é uma irresponsabilidade, não pode transferir para as famílias essa tarefa”, disse ele, acrescentando que reabrir as escolas prematuramente pode levar a novos surtos. “A escola é um foco de contaminação. Esse controle é muito difícil. A escola não é uma redoma.”

Já Suely Menezes, do Conselho Nacional de Educação, declarou que as famílias também precisam preparar os alunos para as aulas presenciais, como um processo de consciência.

“Não haverá a possibilidade de caminhar sem a participação da família. É um processo de confiança, de interação. O que eu penso é que essa relação, para a família decidir, precisa ter um pouco mais de investimento, que haja um compartilhamento de responsabilidade. Para poder voltar as aulas temos que ver aquelas três pontas. As escolas estão cumprindo o papel dela, mas com muita criatividade. A família precisa preparar os seus alunos, tem que botar isso como um processo de consciência. Tem que dizer que o distanciamento tem que ser seguido, mas é temporário. Tem que dizer que a criança precisa participar da aula. Isso a família pode fazer”, afirmou.