Uma pesquisa da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (Abmes), em parceria com o instituto Educa Insights, revelou que os gastos com apostas esportivas online estão interferindo diretamente no acesso à graduação. De acordo com o estudo O Impacto das Bets 2, divulgado em abril de 2025, 33,8% dos jovens apostadores adiaram o início da graduação em faculdades particulares por causa do dinheiro gasto com apostas.

O estudo também mostrou que 34,4% dos participantes que pretendem estudar afirmam que só conseguem entrar na faculdade se pararem de apostar. Segundo o diretor-geral da Abmes, Paulo Chanan, os dados mostram que a situação está se agravando.
“Isso indica que o fenômeno se aprofunda e atinge, principalmente, os jovens das classes C e D. Trata-se de uma realidade relativamente nova no Brasil, que ainda precisa de amadurecimento por parte da sociedade e de uma regulação mais eficaz por parte do poder público”, declarou à Agência Brasil.
A pesquisa ouviu 11.762 pessoas entre os dias 20 e 24 de março, das quais 2.317 preencheram o questionário completo. Os jovens que participaram da pesquisa têm entre 18 e 35 anos, são de todas as regiões do país e de diferentes classes sociais.
Outro dado alarmante é o que mostra que 14% dos estudantes universitários já matriculados em faculdades privadas atrasaram mensalidades ou trancaram o curso por conta dos gastos com apostas online.
Efeitos no futuro da educação
Com base no Censo da Educação Superior 2023, a Abmes estima que quase 1 milhão de estudantes poderão ser afetados em 2026. Isso porque os gastos com apostas têm comprometido parte significativa da renda dos jovens.
“No longo prazo, o dado mais preocupante é a projeção para 2026: quase 1 milhão de potenciais ingressantes na educação superior privada podem não efetivar a matrícula devido ao comprometimento financeiro com apostas e jogos online”, afirmou Chanan.
O diretor do Educa Insights, Daniel Infante, acrescentou que as bets passaram a ser um novo concorrente pelo orçamento do futuro aluno.
“O estudo mostra que o mercado educacional ganha um novo concorrente pelo bolso do aluno potencial. Isto, aliado às mudanças regulatórias em curso, pode afetar significativamente o mercado potencial para o ensino superior privado no país”, avaliou.
A pesquisa revela que metade dos jovens entrevistados aposta com frequência semanal – entre 1 e 3 vezes por semana. Dentre esses, 41% são da região Sudeste e 40% do Nordeste. Além disso, 45,3% dos apostadores disseram gastar mais de R$ 350 por mês, número superior aos 30,8% registrados em 2024.
Apesar disso, houve queda entre os que afirmam não recuperar o dinheiro investido nas apostas. Em 2024, 30,3% disseram ter tido prejuízo total; em 2025, o número caiu para 22,9%.
O impacto também atinge outras áreas da vida dos apostadores. Entre os entrevistados, 28,5% deixaram de sair com amigos ou frequentar bares e restaurantes; 23,6% deixaram de investir em academias ou atividades físicas; e 20,9% cancelaram cursos de idiomas ou outras capacitações.
Embora não se oponha à regulamentação do setor de apostas no país, a Abmes defende que sejam adotadas medidas de controle, conscientização e políticas públicas educativas.
“A Abmes acredita que a solução para o problema precisa ser multissetorial. O enfrentamento ao impacto das bets deve se dar com responsabilidade e dados, promovendo discussões em fóruns educacionais e políticos”, destacou Chanan.
Entre as propostas da entidade estão campanhas educativas nas redes sociais, escolas e instituições de ensino superior para alertar sobre os riscos do uso excessivo das plataformas de apostas.




