Trump traz perspectivas negativas ao comércio, avaliam especialistas

A ascensão de Donald Trump ao comando dos Estados Unidos em janeiro de 2017, com uma visão mais protecionista do comércio exterior e um possível embate econômico com a China, pode gerar uma desaceleração do comércio internacional e afetar, por tabela, o Brasil. A conclusão é de especialistas ouvidos pelo G1.

O magnata norte-americano venceu a democrata Hillary Clinton na última terça-feira (8), em uma disputadíssima e agressiva campanha de quase dois anos, marcada por ofensas e ataques pessoais. A vitória do republicano contrariou a maioria das projeções eleitorais, que previam uma vitória da ex-secretária de Estado, vista pelo mercado como uma alternativa mais segura e menos intempestiva.

Nos dias que se seguiram ao desfecho surpreendente da eleição dos Estados Unidos, houve intensa volatilidade nos mercados mundiais. As principais bolsas de valores do planeta oscilaram como uma montanha russa diante da escolha dos eleitores norte-americanos. O dólar também disparou nos últimos dias no Brasil, registrando, inclusive, maior alta diária em oito anos.

Economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), Rafael Cagnin avalia que o avanço planetário da direita – marcado pela eleição de Trump e pela vitória de outros partidos conservadores na Europa – tende a gerar “efeitos negativos” para a globalização e, por consequência, para as vendas externas brasileiras.

“A perspectiva não é favorável. O comércio internacional cresce muito pouco, um nível historicamente baixo. Metade do que crescia antes da crise. Deve crescer abaixo do PIB mundial, o que não é muito favorável. E a eleição do Trump, assim como o ganho de poder de governos de direita, um pouco mais protecionistas, não trazem bom ventos a essa frente”, diagnosticou o economista.

Para o presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, o triunfo de Donald Trump na corrida pela Casa Branca não é positivo para o comércio exterior, mas também não se pode dizer que é totalmente negativo, como sinaliza inicialmente.

“Vamos ser afetados indiretamente. A expectativa do que ele [Trump] vai fazer gerar incerteza, contração do mercado”, ponderou Castro.

 

O diretor titular do Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Thomaz Zanotto, ressalta que um discurso mais protecionista, vindo de um país como os Estados Unidos, não é “construtivo”.

“Não é construtivo ser muito agressivo no comércio exterior quando o mundo não está avançando muito, com o comércio exterior crescendo menos do que o PIB, algo que não acontece há dez anos”, enfatizou.

Vendas do Brasil para os EUA
Os economistas ouvidos pelo G1 também avaliaram que as compras que os Estados Unidos fazem no Brasil podem não ser diretamente afetadas, até mesmo porque representam muito pouco (menos de 2%) das importações totais da economia norte-americana.

“Primeiro, o Brasil tem com os Estados Unidos um déficit comercial, e não um superávit, de cerca de US$ 2 bilhões [registrado em 2015]. Grande parte do comércio entre os países é feito por multinacionais americanas que operam no Brasil. Não se pode dizer que o Brasil está tirando emprego americano. E há enormes investimentos do Brasil nos Estados Unidos, como a Embraer, que usa componentes americanos”, destacou Thomaz Zanotto.

Fazendo coro ao dirigente da Fiesp, o presidente da AEB observa que o comércio brasileiro com os Estados Unidos não é tão expressivo. “Importamos US$ 26 bilhões, uma participação de 13,8%. O que eles importam do Brasil [US$ 24 bilhões em 2015] representa apenas 1,6% [das compras totais dos EUA]. E eles têm superávit comercial com o Brasil desde 2009”, observou.

 

G1