
Uma denúncia analisada pelo Ministério Público de Milão reacende um dos capítulos mais cruéis da Guerra da Bósnia. De acordo com documentos entregues pelo jornalista e escritor italiano Ezio Gavazzeni, milionários de países como Itália, Rússia, Canadá e Estados Unidos teriam pagado quantias que chegam ao equivalente a R$ 610 mil para participar de expedições clandestinas com um objetivo perverso: atirar contra civis em Sarajevo.
As viagens, segundo o dossiê, partiam de Trieste, no nordeste da Itália, em voos charter da companhia iugoslava Aviogenex. O roteiro incluía deslocamento aéreo até a Sérvia, transporte em helicópteros e trajeto em veículos militares até colinas controladas por milícias sérvio-bósnias. Lá, os “turistas” recebiam armas, guias e acesso a posições de franco-atiradores.
Os relatos apontam que as expedições ocorriam aos finais de semana, ida na sexta e retorno no domingo, permitindo que os participantes voltassem à rotina como se nada tivesse acontecido. Entre os locais mencionados, está a famosa “Alameda dos Snipers”, corredor onde moradores corriam para conseguir comida, água e remédios enquanto eram alvejados. Crianças estavam entre as vítimas preferenciais, segundo os depoimentos reunidos.
A investigação italiana apura a participação de pelo menos três cidadãos do país, incluindo um empresário de Milão proprietário de uma clínica de medicina estética. O ex-chefe da inteligência iugoslava Jovica Stanišić, já condenado por crimes contra a humanidade, também é citado como facilitador das operações.
Apesar de rumores semelhantes circularem há décadas, esse é o primeiro dossiê que reúne nomes, valores e datas capazes de sustentar uma investigação formal. Procuradores esperam que parte dos envolvidos ainda esteja viva para responder por homicídio doloso com agravantes de crueldade.
O cerco de Sarajevo, de abril de 1992 a fevereiro de 1996, deixou mais de 5 mil civis mortos e expôs a população a fome, violência e apagões por mais de mil dias. Cerca de 1.500 crianças estão entre os mortos dessa que é lembrada como uma das páginas mais brutais da história recente europeia.



