
Após um mês da morte do professor Clovis Esequiel, vítima da Covid-19, Wagner Esequiel, concedeu entrevista ao Programa do Valente, na noite desta segunda-feira (21), onde recordou da presença de seu pai e da trajetória em sua vida. Wagner iniciou sua fala, dizendo que ainda é difícil assimilar a perda e durante a entrevista, afirmou que a sua presença diante de um público, mesmo que virtualmente, era para agradecer às pessoas que estiveram presente durante o processo de internação do professor e a forma com que a imprensa se comportou diante do assunto, bastante delicado para a família, em passar a informação correta, sobre a evolução do quadro de saúde do professor.
“Naquele momento entendemos a importância da imprensa que procurou saber de fato o que estava ocorrendo e nos ajudou a passar a informação correta. Agradeço aos grupos que nos acompanharam em suas orações, muitas pessoas aqui no Brasil e fora dele como Canadá e Suíça. Recebemos muitos relatos de homenagem. Agradeço imensamente a minha equipe de trabalho pela paciência comigo, pois para quem tem um familiar que testa positivo para a doença, é muito complicado”, disse.
Wagner recordou o dia em que saiu o resultado dos exames que, além de Clovis, sua mãe também testou positivo para a Covid-19.
“Quando ele testou positivo nós ainda brincamos que ele agora só andaria de máscara, Três dias depois tivemos que refazer os exames e descobrimos que a minha mãe também estava com o vírus e eu tive que sair de casa, largar tudo para poder me preservar. No do dia em que ele testou positivo até a sua morte, eu não tive contato com meu pai, apenas por vídeo chamada”.
Antes da internação do professor, Wagner, mesmo de forma virtual, se manteve em contato com a família, para saber como estavam.
Clovis Esequiel foi diagnosticado com o vírus no dia 21 de abril e internado 7 dias depois por complicações. Wagner informou que após a internação, Clovis permaneceu lúcido por 10 dias e devido ao avanço necessitou ser intubado.
“Ele lutou para não ser entubado, porque ele sabia. Mesmo preparado, se manteve tranquilo. Ele estava resignado, essa é a palavra”, comenta.
Quando a pandemia começou, Clovis Esequiel evitava estar em contato com muitas pessoas, e essa atitude, sábia, devido ao alto grau de contágio, de abraçar, apertar as mão, se reunir de estar próximo, o afastou de muita gente.
“Ele tinha muito medo de pegar a doença e perdeu muitos amigos para o coronavírus”, recorda.
Emocionado ainda pelo luto, Wagner falou de sua dor ao ter que assistir ao estado em que seu pai se encontrava quando esteve internado. E pediu maior conscientização das pessoas no enfrentamento da doença.
“As pessoas em casa não tem noção do que é isso. Tem muita gente brincando, tratando a doença como se ela fosse uma gripezinha. E isso ficou muito marcado na voz do presidente Bolsonaro, e muita gente pegou essa fala como argumentação. Muitos falam que o presidente não é o culpado, mas ele é culpado por uma série de fatores. Ele tem que perceber que ele não é presidente de um gueto, de A ou de B. Ele é presidente do país e o que ele fala, gera um incentivo muito grande. Ele é o único presidente de uma república que faz chacota com a dor dos outros, com a morte de seu próprio povo. Não tem um outro presidente, que durante a pandemia que disse frases iguais a dele, de gripezinha ao corpo de atleta. E o que marcou foi assistir ao nosso presidente imitando, com chacota uma pessoa em crise”, externou.
Wagner falou ainda das fake News disseminadas nas redes sociais sobre a morte de seu pai, muito antes da confirmação do hospital. Segundo informou, no dia em que Clovis apresentou uma piora no quadro a família recebeu uma enxurrada de ligações, e ainda estão sem entender como a informação vazou.
“Ainda estávamos dentro do hospital e na saída, pessoas já estavam nos ligando querendo informação, se poderiam levar flores. Era uma situação delicada, de dor. Meu pai ainda estava vivo. Ainda não me passa pela cabeça que pessoas de nosso convívio, colegas de trabalho, do órgão em que meu pai trabalhou, chefiou, tinha feito uma Nota sobre sua morte. São 500 mil vidas perdidas. Goste você ou não, querendo ou não, tendo sua ideologia política estou convencido de duas coisas: não se trata mais de política ou democracia. Se trata de morte ou vidas. Civilização ou barbárie”, ponderou.
Na entrevista, Wagner recordou a trajetória política e profissional do pai e de quando ele foi convidado para fazer parte do Ministério da Educação no governo Dilma Roussef (PT). Professor Clovis Esequiel foi assessor do reitor da UFRB, Paulo Gabriel e Coordenador Nacional do Campus.
“Tudo que era relacionado a questão de educação do campus, era gestão de meu pai, no Brasil todo” fala orgulhoso.
Em homenagem ao pai, Wagner recordou de sua infância que, por enfrentar alguns problemas de saúde, foi bastante difícil: “Falei aos seis anos e só fui andar aos sete”, conta. Para Wagner, a sua relação com o pai foi mais que um ato de amor.
“A adoção é o maior ato de amor que existe na face da terra. E eu sou adotado, por parte de pai, porque não sou filho biológico de meu pai. Por que desde pequeno ele cuidou de mim. Mainha o convidou para ser meu pai e ele disse que um dia ele iria ser. Aos meus doze anos eu ficava chateado na escola porque eu via no RG das pessoas o nome do pai, e eu não tinha o nome de meu pai”, revela.
Wagner disse ainda que quando Clovis Esequiel foi nomeado presidente do Conselho Tutelar, coincidiu com seu aniversário, ele pediu de presente ter o nome de Clovis como seu pai.
“Pedi de presente de doze anos, ter ele como pai. Nós corremos atrás disso e pensamos até que poderia conflitar, por ele ter sido eleito presidente do Conselho. Foram dois anos de investigação para saber se ele estava de fato preparado para me adotar, mesmo morando com minha mãe, mesmo ele me dando tudo, por esses anos todos. Gosto muito de ressaltar isso que Clovis não era meu pai biológico, mas meu pai de coração, meu eterno pai”, completa.
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