Lutas negras no Recôncavo da Bahia

 

Prof. Cincinato Franca – Edição da Livraria Econômica, Bahia, 1914

Nascido na açucareira Freguesia de São Thiago do Iguape, na Comarca de Cachoeira, Recôncavo da Bahia, Cincinato Ricardo Pereira da Franca foi batizado em 26 de abril de 1861. Duas décadas depois, como professor e negro, Cincinato estava intensamente envolvido nos debates relacionados à escravidão e transitava em diversos espaços sociais da agitada Cachoeira de finais do século XIX. Aliado a outros sujeitos, inclusive negros, participou das campanhas pela abolição da escravidão na região, desenvolvendo um ativismo abolicionista relacionado à defesa da instrução pública para escravizados e seus descendentes, tema recorrente à época.

As lutas nas quais se envolveu o professor Cincinato Franca arregimentaram muitos outros sujeitos negros livres, libertos e escravizados. A vasta documentação guardada em arquivos baianos revela uma intensa movimentação nos derradeiros dias da escravidão. Isso envolveu inúmeras pessoas, sobretudo negras, num momento de tensão e conflitos acirrados por questões políticas e sociais de finais do século XIX.

Gente que atuou nos movimentos abolicionistas disputando ações de liberdade na justiça, fugindo de domínios senhoriais, questionando políticas escravistas, escondendo escravizados em fuga, escrevendo em gazetas abolicionistas, entre outras iniciativas. Tudo isso contribuiu para o acentuado decréscimo do poder senhorial e o gradual definhar da escravidão.

No imediato pós-abolição, ainda em 1888, Cincinato Franca criou uma escola noturna, na redação do jornal O Guarany, reunindo elevado número de libertos. Seu projeto de abolição estava diretamente relacionado à instrução pública como caminho possível para a conquista e ampliação da cidadania. Para ele, a educação do “povo” era uma bandeira pela qual valeria lutar. Como homem negro nascido durante a escravidão, entendia a educação das populações negras e pobres como uma importante plataforma de mobilidade social e exercício da cidadania para esses grupos.

Trajetórias como a do professor baiano Cincinato Franca nos permitem entender a importância das redes de sociabilidade e solidariedade que envolveram indivíduos negros, durante e após o fim da escravidão. Na região do Recôncavo, onde havia acentuada concentração de africanos e seus descendentes escravizados, abolicionistas e simpatizantes do movimento, assim como os próprios escravizados protagonizaram situações que contribuíram para acelerar o processo de desmonte da escravidão. Após o 13 de maio de 1888, homens e mulheres negras seguiram elaborando maneiras de sobreviver, resistir e lutar para manter a custosa liberdade.

A despeito da invisibilidade historiográfica a que estiveram submetidos, por muito tempo, homens e mulheres negras protagonizaram suas vidas e a dos lugares que habitaram. Elaboraram narrativas por meio das quais demonstraram iniciativas e ações reveladoras de uma participação ativa na construção de caminhos para as sociedades baiana e brasileira.

Nos últimos anos, diversos pesquisadores vêm construindo uma historiografia renovada, evidenciando agências das populações negras, comprometidas na conquista e ampliação de direitos. Casos como o do professor Cincinato Franca explicitam a amplitude dessas ações e sua indiscutível eficácia no fortalecimento de vastas redes de solidariedade e associativismo que deram o tom das disputas desse tempo. Essas lutas ainda nos são contemporâneas e encontram reforço no momento em que vivemos. Apesar das derrotas, que fazem parte do combate, a celebração dos 50 anos do 20 de novembro é reconhecida nacionalmente. A data é instrumento de legitimação da memória de enfrentamentos e resistências do nosso povo.

 

*Este artigo compõe a Ocupação da Rede de HistoriadorXs NegrXs em veículos de comunicação de todo o Brasil neste 20 de novembro de 2021.

 

Jacó dos Santos Souza – Diretor do Arquivo Público Municipal de Cachoeira e Doutor em História Social pela UFBA;

 

Yuri Oliveira da Silva Mestrando em História Social – PPGH/UFBA. Ambos integram a Rede de HistoriadorXs NegrXs.