RJ: aposentado com suspeita de coronavírus passa três dias sentado em emergência à espera de um leito

Demorou 12 horas para o aposentado Manoel Marinho, de 70 anos, conseguir fazer a tomografia do tórax quando chegou ao CER Leblon, na Zona Sul do Rio, com intensa faltar de ar, na última segunda-feira. Mas a família, moradora do Caju, região central do Rio, não esperava que, depois disso, ele fosse ficar três dias sentado numa cadeira à espera de um leito.

Com forte suspeita de Covid-19, Manoel conseguiu um balão de oxigênio às 5h do dia seguinte. Porém, não havia sequer uma maca para o aposentado se deitar. Ele teve que ficar na cadeira ao lado de outros pacientes da unidade.

Além de lidar com a situação de colapso da rede pública que expôs o carpinteiro aposentado a esta situação, os filhos de Manoel, Karine e Uziel Silva, e a nora, Marilene da Silva, culpam a assistência do social da unidade médica pelo descaso e a falta de informação, que está gerando tanta angústia.

— Tem sido desumano. Ele é idoso, hipertenso, com Covid-19 e está sentado em cima de uma cadeira, sem a gente saber se está assistido ou não. Só pediram nosso telefone. Deve ser para entrar em contato quando ele falecer, como estão fazendo com muitos aqui — desabafa Karine.

Os familiares do aposentado encontraram uma forma de acompanhar o atendimento, mesmo que de longe, por uma janela do CER Leblon.

— Ele não está tomando banho e não sabemos se ele comendo. Não deixam a gente levar roupa ou material de higiene. Está um descaso muito grande, todos estamos tentando fazer alguma coisa e ninguém consegue nada — lamenta Marilene, nora de Manoel.

Na sala onde está sentado, Manoel fez amizade com Felipe Dias, entregador de aplicativo, de 35 anos, que já estava com o diagnóstico positivo para o coronavírus. As atualizações que Manoel passava para a família eram pelo celular de Felipe. Na noite desta quarta-feira, o aposentado escreveu para a família dizendo que “esfriou muito e minha respiração piorou”.

A mulher de Felipe Dias, Shayana Duarte, passava aos filhos de Manoel. As famílias, inclusive, ficaram amigas ao compartilharem a falta de notícias do hospital. Ao longo da semana anterior, o entregador, que mora no Catumbi, também Região Central, já tinha apresentado sintomas como falta de ar e uma febre. Ele procurou o CER Leblon quando a dificuldade de respirar se tornou insuportável.

Vaga na sala amarela

Ontem à tarde, um médico disse à família de Manoel Marinho que o resultado para a Covid-19 deu positivo, e que o quadro de saúde dele é estável. Durante a noite, a Secretaria municipal de Saúde disse que o aposentado “está internado na sala amarela, em leito destinado ao tratamento para casos com Covid”. Já CER Leblon informou ainda que a família pode procurar a coordenação da unidade para esclarecer essa e qualquer outra dúvida sobre o tratamento do paciente.

A rede pública do Rio já tem 1.585 pacientes internados com suspeita de coronavírus, 443 em UTI. Na fila de espera há 1.115 pessoas, sendo 332 com necessidade de UTI.

CER Leblon: pacientes esperam atendimento
                                                                                                                          CER Leblon: pacientes esperam atendimento Foto: Arquivo pessoal

No Alemão, mulher também fica na cadeira

Na Zona Norte do Rio, a mãe de Joyce Baptista passou por uma situação parecida com a de Manoel Marinho. A aposentada Marisane Baptista, de 57 anos, retornou à UPA do Complexo do Alemão dois dias após buscar atendimento na unidade, com dificuldades para respirar. Lá, testou positivo para o coronavírus e descobriu que precisava de um leito. Mas, de acordo com Joyce, o médico informou que ela teria que esperar na cadeira, pois no leito não tinha saída de oxigênio.

— Ontem (quarta-feira), de manhã, ela ainda conseguia falar. Não tinha um balão móvel e ela precisava ir ao banheiro. Eu a ajudei, mas no banheiro ela passou muito mal, com falta de ar e tosse.

Na madrugada de quarta para quinta-feira, depois de esperar quase três dias sentada, Marisane foi transferida para o Hospital Municipal Ronaldo Gazolla, em Acari, também na Zona Norte.

Procurada, a secretaria informou que a partir de hoje irá receber o boletim médico diário com atualizações.

*Extra