Do alto, através do ?Google map?, e ampliado com as imagens de satélite feitas no início do ano, a Praia do Sossego, na Ilha de Itaparica, ao lado do Terminal do ferry boat, em Bom Despacho, parece um dos inúmeros condomínios residenciais existentes em várias partes da costa da ilha. De baixo, ao nível do chão, contudo, o que se tem ali é uma ocupação irregular à beira mar, que já conta com mais de 40 barracos de madeira e zinco.
A ocupação, rebatizada como Praia de Cajá (por causa de uma enorme cajazeira logo na entrada) está encrustrada em meio á vegetação e foi montada sobre as areias da tranqüila enseada ao lado do terminal de Bom Despacho, bem á vista de quem embarca e desembarca nos navios ferries. Conta com moradias e barracas de praia e se transformou em uma espécie de ?point? dos moradores das localidades de Manguinhos, Porto Santo e da vizinha praia de Búzios, do outro lado do terminal do ferry boat.
A ocupação é coordenada por Lúcia Santos da Silva, 46, que diz estar no local há aproximadamente 10 anos. Ela mesma admite que a área hoje está ocupada por 40 famílias, entre barraqueiros e moradores e que o espaço é irregular, por se tratar de uma ocupação da areia da praia . ?Isso aqui desperta a cobiça de todos, pois se trata de uma praia tranqüila, próxima ao terminal marítimo e de fácil acesso?, diz, referindo-se aos atritos quer têm com a Prefeitura de Itaparica, com funcionários da Agerba (que administra o terminal de Bom despacho) e com supostos donos do terreno.
Área contestadaO procurador geral da Prefeitura de Itaparica, Marcos Vinicius é taxativo ao considerar a ocupação como negativa para a imagem da ilha. Mas admite que não pode fazer nada, por se tratar de um terreno pertencente à União. Há pouco mais de dois anos a prefeitura tentou retirar os moradores, mas enfrentou resistência e desistiu. ?Agora a gente aguarda uma decisão da justiça, pois o terreno não nos pertence?, diz.
No ano passado a Procuradoria Jurídica do Município encaminhou ofício solicitando providências aos Ministérios Público estadual e federal, por se tratar de um terreno supostamente da União. ?Cabe a Secretaria do Patrimônio da União (SPU) decidir?, diz. Já a Intermarítima, que administra sob regime de concessão, o terminal de Bom Despacho, através de sua Assessoria de Comunicação, também se isenta do problema. E a Agerba, contatada ontem à tarde pela Tribuna da Bahia, pediu que lhe fosse encaminhada as solicitações por escrito e que possivelmente hoje daria uma resposta.
O terreno ocupado da Praia do Sossego (atual Praia do Cajá, segundo os moradores), também é reivindicado por três outros supostos donos. Um deles atende pelo nome de Charles, que segundo os ocupantes da área, mora na localidade de Amoreira. Uma outra família que reside em Manguinhos, também reivindica a posse da área, e, por fim, supostos proprietários do Loteamento Viver Bem em Itaparica, que segundo os próprios invasores, estariam com ações de espólios na Comarca de Itaparica.
Moradia privilegiada
De uma coisa os ocupantes da Praia do Sossego, em Itaparica, não podem se queixar: a proximidade de todos os serviços de infraestrutura, como acessos fáceis por terra e por mar, transportes, serviços, escolas e até mesmo a proximidade do Hospital regional de Itaparica. Isso sem contar com mais de 500 metros de praia de água morna e tranqüila e uma vegetação nativa à beira mar ainda intacta.
Esses predicados é que geram os atritos com os órgãos públicos e supostos proprietários da área, na visão Lúcia Santos Silva, líder comunitária. Ela é apoiada por duas outras moradoras, espécies de co-lideranças da ocupação: Alice Alves de Souza, 46, a quem coube rebatizar o local como Praia de Cajá, e por Flávia Conceição Silva, 34, dona da primeira barraca logo na entrada da praia.
Para evitar que carros transitem pela areia da praia, a entrada da ocupação foi cercada. Mas mesmo assim, é possível ver um grande número de freqüentadores que se espalham por mesas e cadeiras colocadas na areia, por proprietários dos barracos que transformam suas casas em bares nos finais de semana. Essa espécie de ?paraíso?, que só é visto do alto ou das embarcações que chegam a Itaparica, como em qualquer ocupação irregular, conta com água e energia elétrica à base de ?gatos?, e não tem qualquer sistema sanitário. (Tribuna)


