“Lições que aprendi com meu filho autista”. Era esse o título do post do apresentador Marcos Mion no Facebook, onde contava uma história emocionante: seu filho Romeo pede de presente de Natal uma escova de dente azul e se comove ao ganhá-lo. Para muitos, o inusitado enredo se dá justamente pela singularidade do presente. Para outros, porém, mais habituados com o comportamento de crianças com autismo, o que saltou aos olhos, de fato, foi a demonstração de emoção do pequeno.
O que mais chama a atenção em pessoas com autismo é o prejuízo nas habilidades sociais, onde há uma “certa inadequação em abordar e responder aos interesses e emoções”, segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais da American Psychiatric Association (APA). Por isso, ao demonstrar o que sentem, estas crianças enternecem, deixando marcas profundas nos pais, para sempre lembradas com ternura e felicidade.
Para a funcionária pública Ana Carolina Ferrão, de Vitória (ES), o Natal também será lembrado por muitos anos, já que poucos dias antes teve o diagnóstico de autismo confirmado em seu filho Pietro, de 3 anos e nove meses. “Ser mãe de uma criança com autismo é uma experiência surreal. Passamos a enxergar o mundo de forma diferente. Enxergamos melhor o próximo. É uma bondade, uma pureza, que não se explica”, afirma.
E ela, como quase toda mãe (e pai) de uma criança com autismo, também tem sua história de quando o filho demonstrou uma grande emoção.
Foi então que esse dia chegou e, tal como a história de Romeo, se deu de uma maneira inusitada. “Meu filho adora pipoca e sempre comprávamos para ele. Um dia, porém, o pipoqueiro não estava lá, no local onde sempre comprávamos. Sem pipoca, ele ficou contrariado”, conta Ferrão. “Neste mesmo dia, voltando para casa, resolvemos passar na casa do moço que vendia pipoca, para agradá-lo. Quando ele pegou o saco de pipoca, ficou tão feliz que falou: 'obrigado, mamãe, eu te amo'. Foi a pipoca mais feliz de nossas vidas.”
A psicoterapeuta Adriana Moral, coordenadora do Instituto Lumi, de São Paulo, voltado a crianças com autismo, explica que a “dificuldade social” das crianças explica tanto a inabilidade em demonstrar emoções como o gosto por objetos, como a escova de dente azul do filho de Mion, em detrimento de brinquedos.
“As crianças com autismo não têm essa questão de comparar os presentes, mostrar para o outro, ter o que está na moda etc. Além disso, têm interesses diferenciados, vide a escova de dente azul”, explica a psicoterapeuta. “Tudo isto envolve emoção, mas eles têm essa dificuldade social. De não pensar no que é legal. E eles têm dificuldade no brincar. Não tem aquela imaginação toda. Por isso, muitas vezes objetos de uso regular [como a escova] são mais interessantes.”
Ana Maria Serrajordia, engenheira de profissão e fundadora do AMA (Associação de Amigos do Autista) de São Paulo, é mãe de um adulto de 36 anos, que tem um autismo “severo”, nas palavras dela.
“Lembro-me de meu filho ter chorado uma única vez. Ele era pequeno, e a escola que frequentava ia fechar. No último dia de aula, ele começou a chorar e se agarrou à diretora”, conta. “Muito tempo depois, 29 anos para ser mais exata, relembrei essa história e a ex-diretora da escola ficou sabendo. Combinamos de nos encontrar e quando meu filho a viu, ficou visivelmente feliz. Ele a reconheceu e não escondeu a felicidade em vê-la. Fiquei emocionada”, completa Serrajordia.
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