Mês passado, um amigo me convida para visitar o empreendimento rural de um cliente dele. Manhã de domingo, chegamos à magnífica fazenda, com palmeiras imperiais enfileiradas a receber os visitantes e uma belíssima e confortável casa em estilo colonial.Apresentações feitas, instalamo-nos no alpendre e a conversa circulou por vários temas até cair no desempenho do governo Dilma. Fiz questão de apenas ouvir, intervindo o mínimo possível no embate polarizado pelo amigo que me fez o convite o anfitrião. Este, além de produtor rural de sucesso, é prospero empresário e, em dado momento, a conversa fluiu para as ações sociais do Governo Federal.Discutiu-se então o Bolsa Família, Bolsa Escola e o recém-lançado programa Brasil Carinhoso. Foi quando o fazendeiro mostrou a sua total indignação com o assistencialismo iniciado no governo Lula e ampliado por Dilma. ?Um absurdo, ninguém mais quer trabalhar na zona rural, não se consegue uma empregada doméstica e até os ajudantes de pedreiro querem ganhar mais que engenheiros. Aqui na roça se pagava R$ 20,00 por um dia de trabalhador braçal e agora eles querem R$ 40,00, empregada doméstica, só fala em salário mínimo e carteira assinada, um completo disparate.?Foi então que entendi onde o empresário queria chegar: quando ele criticava o assistencialismo governamental não estava preocupado com a dignidade e cidadania dos assistidos e sim com a perda da mão de obra barata que ele explorou anos a fio. O labor braçal na zona rural foi, durante décadas, a única fonte de renda das camadas mais pobres, que vendiam o dia de trabalho por quantias irrisórias, quando não o faziam em troca de um prato de comida. Sem ter o que fazer na roça e sem força física para o trabalho duro, as mulheres migravam para a cidade para, a exemplo dos homens, serem exploradas ?no pé da cozinha?, por salários igualmente aviltados. Em tempos de ?vacas magras?, sem opção nas cidades, o trabalhador sem qualificação sujeitava-se à dura tarefa de servente de pedreiro, por exemplo, por diárias que, ao final do mês, ficava muito aquém do salário mínimo.Com a virada econômica da última década e as ações de resgate da cidadania promovidas pela esfera federal, as pessoas passaram a ter o mínimo com que se manter e já não necessitam se submeter ao trabalho aviltante e muito próximo daquele do tempo da escravidão. As pessoas que exploravam esta mão de obra com salário de miséria ficaram indignadas. Para poder contar com os mesmos serviços que antes custavam uma ninharia, estão tendo que pagar salários melhores, ainda que muito longe do ideal. Criticam o que chamam de assistencialismo, acusando o Governo Federal de estar criando uma geração de preguiçosos, que não precisam trabalhar, pois recebem as benesses dos programas. Esquecem que, os R$ 70,00 ou algo próximo disso, apenas amenizam a fome de quem nada tem e não são suficientes sequer para uma digna cesta básica. Os que criticam as ?bolsas?, não sabem o que é passar fome, não sabem o que acordar pela manhã e não ter o que dar aos filhos, para calar o choro. Não o choro de dengo dos filhos dos mais abastados, mas o choro da fome corroendo os pequenos estômagos ainda em formação, mas já atrofiados pela falta do que comer.Fiquei a olhar aquela bela propriedade com SW4 nova na garagem, piscina e demais itens de conforto e concluí: realmente quem desfruta deste padrão de vida não pode mensurar a importância das ações de resgate da cidadania de quem só vê fartura, luxo e conforto na casa dos patrões ou nas novelas da TV.
Euriques Carneiro



