
Depois de uma semana cheia de notícias sobre uma suspeita de fraude no concurso para servidor da Universidade Federal da Bahia (Ufba), o certame aconteceu normalmente na manhã deste domingo (29). 72.066 candidatos estão inscritos no exame. Pela manhã, as provas são para os cargos de nível médio de técnico-administrativo. Já à tarde, a seleção é para candidatos de nível superior à vagas de analista.
Apesar da confiança nos estudos, alguns condidatos estavam descrentes em relação à segurança da prova. A preocupação da possibilidade de uma fraude, levou o desânimo aos candidatos.
“Eu me garanto. Estudei muito pra isso, mas não tenho confiança quanto à segurança de que a prova não será fraudada” , declarou a dona de casa Maria José Ferreira, 33 anos, pouco depois de antrar na Escola Politécnica da Ufba.
“A gente chega com o psicológico abalado. Mesmo que não ocorra a fraude, que será sempre uma dúvida, só essa tensão é capaz de mexe com o emocional e fazer com o que o candidato erre algumas questões”, disse a estudante Jamile Gama, 24, quando cruzava os portões da Politécnica.
Para o comerciante Pablo Costa, deveria haver um esquema especial de segurança. “Talvez se tivesse polícias espalhados, viaturas da PF, daria uma sensação de segurança”, declarou.
Mas teve gente que não acreditava na possibilidade de fraude. “Não havia tempo. Os bandidos foram presos antes mesmo do esquema chegar à Bahia”, declarou o administrador Fabio Rodrigues , 35.
Atrasos
Como de praxe, teve gente que perdeu a prova. Foi o caso da professora Deive Dalva Santos Neri. “Esqueci o documento que informa o local da prova. Fui no que eu lembra na hora, o que vinha em minha cabeça e vim parar aqui, na Politécnica. Só percebi quando vi que meu nome não estava na lista”, disse a professora. O local dela se prova era na faculdade de Filosofia.
“Acordei 4h. Moro em Cajazeiras. Mas por conta dos engarrafamentos devido também ao concurso, acabei perdendo a prova” , disse ela.
Entenda as suspeitas
Em seis meses, o período de inscrição para concorrer a uma vaga como servidor técnico-administrativo da Universidade Federal da Bahia (Ufba) foi adiado duas vezes. Praticamente um ano e dois meses se passaram entre a publicação do edital e a data da prova. O edital prevê salários entre R$ 1.945,07 e R$ 4.180,66, além de benefícios. As oportunidades são destinadas aos Campi da UFBA de Salvador e Vitória da Conquista.
No último fim de semana, surgiram as primeiras informações sobre uma suspeita de fraude nas redes sociais e nos grupos para compartilhar material de estudo. A Polícia Civil da Paraíba apontava que uma organização criminosa daquele estado fraudou o concurso do Tribunal de Justiça de Pernambuco – e, entre as provas, indícios e conversas interceptadas que indicavam que a mesma fraude seria cometida daqui a alguns dias, na prova da Ufba, em Salvador.
Em entrevista ao CORREIO na última segunda-feira (23), o delegado Lucas Sá, titular da Delegacia de Defraudações e Falsificações (DDF) da Paraíba e responsável pela chamada Operação Gabarito, confirmou: há indícios de que o mesmo grupo que é acusado de ter fraudado mais de 100 concursos pelo país esteja atuando para favorecer candidatos às 222 vagas da Ufba.
“A lista inicial (dos beneficiados) conta com 10 nomes, mas identificamos informações que indicam que pode chegar a 30 beneficiados”, afirma o delegado, que diz ainda não ter a identificação de todos os possíveis beneficiários. Apesar disso, todos os membros da quadrilha já estão identificados: 31 estão presos e outras 40 pessoas, ainda em liberdade, estão sendo investigadas.
De acordo com o delegado Lucas Sá, o grupo atua em todo o Brasil há mais de 10 anos – nesse período, o prejuízo estimado é de mais de R$ 21 milhões. Os candidatos que querem burlar o sistema costumam pagar, em média, um valor correspondente a 10 vezes o salário inicial do cargo desejado – assim, há pagamentos de até R$ 150 mil para a quadrilha.
Nesta quinta (26), a Polícia Federal instaurou um inquérito para apurar as denúncias sobre a suspeita de fraude no concurso. A corporação informou ainda que já está com todos os documentos e as informações que foram repassadas pela Polícia Civil da Paraíba, que investiga a atuação de uma organização criminosa envolvida em um esquema suspeito de ter fraudado mais de 100 concursos pelo país.
Fonte: Correio




