Apesar de registrar aumento de 40% no fluxo de turistas, de 2017 para 2018, quando recebeu entre final de ano e Carnaval mais de 150 mil visitantes, a cidade de Camamu, Sul da Bahia, foi rebaixada de categoria pelo Ministério do Turismo em um ranking nacional que mede o desempenho econômico dos municípios brasileiros no setor.
Fundado em 1562 às margens do Rio Acaraí, Camamu, com 36 mil habitantes, fica na Costa do Dendê e é porta de entrada para a Baía de Camamu, Taipu de Fora e Barra Grande (pertencentes a Maraú, cidade vizinha) e caiu da categoria C para a D, o que na prática significa direito a menos verba para eventos patrocinados pelo Ministério do Turismo.
Já 17 cidades da Bahia registraram crescimento pelo setor, a exemplo de Lauro de Freitas, Mucugê, Santa Cruz Cabrália e Teixeira de Freitas (leia abaixo).
O ranking que vai de A a E, apresentado em um ‘Mapa do Turismo’ que pode ser acessado online, mostra a Bahia com 150 cidades: 4 com classificação A – Salvador, Porto Seguro, Cairu (com Morro de São Paulo) e Mata de São João, com Praia do Forte – e as demais com B (19 cidades), C (31), D (85) e E (11 municípios).
Segundo a portaria 39/2017 do Ministério do Turismo, somente municípios classificados entre A e D podem pleitear apoio a eventos geradores de fluxo turístico. Nas categorias A, B e C, o teto é de, respectivamente, R$ 800 mil, R$ 500 mil e R$ 400 mil, que têm de ser gastos em dois eventos que não ultrapassem a metade do teto.
Cidades da categoria D recebem R$ 150 mil para um único evento. Além de Camamu, foram rebaixados para a categoria D os municípos de Amargosa, Dias D’Ávila, Maragogipe, Saubara e Simões Filho.
Empregos
Coordenador-geral de Mapeamento e Gestão Territorial do Turismo, do Ministério do Turismo, Leonardo Riul disse que a queda de categoria de Camamu se deu devido a redução de empreendimentos de hospedagem (de nove para três) e de empregos formais nesses empreendimentos – caiu de 25 para sete postos de trabalho.
Os dados, informa o Ministério do Trabalho, são referentes ao ano de 2017, quando 747 estrangeiros passaram pelo município que foi o maior produtora de farinha de mandioca do Brasil na época colonial e, assim como Salvador, é dividido entre cidade baixa e alta, de onde se avista a Baía de Camamu, terceira maior do país.
Leonardo Riul reconhece que Camamu teve melhoria no fluxo de turismo, mas destaca que os dados que baseiam a pesquisa do Ministério do Turismo são coletados junto ao Ministério do Trabalho, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e a consultorias contratadas pelo ministério para avaliar a demanda de turistas.
A Secretaria Municipal de Turismo de Camamu discorda dos dados do Ministério. Afirma que possui cerca de 600 leitos de hospedagem em oito pousadas e um hotel dentro da cidade, outras quatro pousadas na Ilha Grande, além de cerca de 40 bares e restaurantes na cidade e nas dezenas de ilhas da Baía de Camamu.
O setor de hospedagem, diz a secretaria, gera cerca de 50 empregos, e a rede do turismo ao menos 300, contando com estabelecimentos da cidade, das ilhas e dos empregos em lanchas e escunas, que transportam até 140 pessoas por passeio, com preço que varia de R$ 35 a R$ 40.
Sem vida noturna
Moradores da cidade que atuam no setor do turismo disseram ao CORREIO, no entanto, que a cidade em si precisa melhorar a infraestrutura local para os turistas e criar atrativos para que eles possam ficar mais em Camamu. A cidade não tem, por exemplo, vida noturna e lazer infantil (de dia ou à noite).
“Aqui é mais um lugar para a pessoa passar, não tem muitos atrativos locais, somente cachoeiras e balneários a algumas dezenas de quilômetros, e as ilhas da Baía. Não tem um restaurante bom. O restaurante do hotel é o único ‘à la carte’. O que tem aumentado o fluxo de turistas são Taipu de Fora e Barra Grande”, completou.
Presidente da Associação de Lancheiros, entidade que reúne 13 donos de embarcação (entre lanchas e escunas, são cerca de 30), Josimar Longo Ramos acha que Camamu precisa melhorar a infraestrutura para fazer o turista ficar mais na cidade. “O fluxo de turistas aumentou, todo mundo vê. Mas o turista só passa aqui e vai embora”, disse.
“Mas não está ruim não. Dá para a gente viver tranquilo. Acho que o problema daqui da cidade, de não ter atrativo e maior estrutura, é competir com as belezas naturais de Barra Grande e Taipu de Fora, e com as ilhas. O turista prefere ficar mais perto delas”, comentou o dono de uma agência de turismo local, Marcos Paulo Conceição.
Em 2009, foi entregue uma rodovia estadual e uma ponte, sobre o Rio de Contas, ligando Camamu a Itacaré. A inauguração da BA-001 pelo então governador Jaques Wagner contou com a presença do ministro do Turismo, Luiz Barreto. A estrada seria uma via alternativa, mais curta, de ligação entre a capital e a região do Sul. O custo total da ponte e dos 13,5 quilômetros foi de R$ 37 milhões, recursos do Prodetur II. À época, a expectativa do município era de que o turismo fosse potencializado.
Irreais
O secretário municipal de Turismo Carlos Cássio Oliveira Silva afirmou que os dados do Ministério do Turismo não refletem a realidade de Camamu. Admitiu, porém, que a cidade precisa melhorar a vida noturna e oferecer opções para que o turista aproveite mais a cidade, sobretudo a orla que fica à beira do Rio Acaraí.
“Temos uma orla muito bonita, agradável à noite. Estamos trabalhando com os bares para que eles abram e ofereçam um bom serviço, com boas comidas e apresentação de artistas locais”, declarou. “Mas temos bons restaurantes que oferecem comida de qualidade durante o dia, sem deixar a desejar”.
“De dois anos para cá, só temos registrado crescimento”, disse o secretário. “Acho que esses dados do Ministério do Turismo estão defasados, longe da nossa realidade. Mas, independente disso, estamos trabalhando para melhorar o setor, atrair mais turistas e recepcioná-los da melhor forma possível”, comentou.
Silva lamentou o fato de a cidade ter perdido o direito de pedir mais verba, usada geralmente para a Festa da Padroeira, realizada dia 15 de agosto. São sete dias de festa. “Já fizemos a solicitação deste ano e espero poder contar com o recurso. A festa agita toda a cidade e tem participação de artesãos, artistas e o festival de gastronomia”.
Dezessete cidades baianas subiram de posição
Na nova categorização do Ministério do Turismo, 17 cidades da Bahia registraram crescimento pelo setor, a exemplo de Lauro de Freitas, Mucugê, Santa Cruz Cabrália e Teixeira de Freitas.
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| Cemitério Bizantino em Mucugê (Foto: Suzana Matos/Divulgação) |
Em todas elas, foi verificado aumento do número de empregos por meio do turismo, a ampliação dos estabelecimentos formais de hospedagem e do fluxo de visitantes domésticos e internacionais.
O Ministério destacou que “a categorização é um processo dinâmico e perene que, assim como o Mapa do Turismo Brasileiro, deverá ser atualizado e aperfeiçoado periodicamente”.
Informou ainda que a “categorização serve também como balizador de políticas do setor e direcionamento de verbas federais. Com essa atualização, é possível perceber que alguns municípios estão se estruturando em regiões e fortalecendo, naturalmente, a economia do turismo.”
O motivo da alteração de categoria (para baixo ou para cima) é a dinâmica do desempenho da economia do turismo nos municípios, seja pelo aumento ou redução do seu fluxo turístico, da oferta de hospedagem ou pelo encolhimento ou expansão da mão-de-obra ou infraestrutura ligada ao setor.
Assim, se um município teve seu fluxo turístico e seus estabelecimentos formais de hospedagem ampliados, provavelmente, na próxima categorização, quando dados serão novamente avaliados, ele poderá mudar de posição.
Verba para recuperação
Com o objetivo de melhorar a infraestrutura das cidades e recuperar posições na categorização, o Ministério do Turismo informa que já destinou, desde 2003, R$ 5,6 milhões a Amargosa, Camamu e Maragogipe para obras de reforma de praças, urbanização, revitalização de orlas e sinalização turística.
A Secretaria do Turismo da Bahia (Setur) informou que tem incentivado os municípios a atender às orientações do Ministério do Turismo com o propósito de facilitar a integração com as políticas de desenvolvimento do setor.
“O mapa contempla destinos consolidados e aqueles que possuem grande potencial para crescer, a exemplo de Santa Cruz Cabrália, Mucugê e Esplanada, ratificando o nosso trabalho para a expansão da atividade turística”, afirma o secretário estadual José Alves.
O presidente na Bahia da Associação Brasileira da Indústria de Hoteis (ABIH), Glicério Lemos de Santana, disse que “acompanha de longe a categorização do Ministério do Turismo”.
“Ele pode ser importante para balizar as políticas públicas para o setor, mas tem pouco efeito prático no consumidor final, que é o turista”, disse Lemos.
“Estamos mais antenados é com as redes sociais da internet, que têm sido o nosso termômetro. Por meio delas, temos monitorado quais são os locais que têm mais recebido críticas e elogios. O relato nas redes sociais da experiência que as pessoas tiveram é o que tem mais influenciado outras pessoas a ir ou deixar de ir a certos lugares, seja um restaurante ou uma praia”, concluiu.
Cidades que subiram de categoria:
- Adustina
- Aratuípe
- Esplanada
- Formosa do Rio Preto
- Gentio do Ouro
- Ibicoara
- Ibotirama
- Itanhém
- Lauro de Freitas
- Mucugê
- Palmeiras
- Pindobaçu
- Planaltino
- Santa Cruz Cabrália
- Sento Sé
- Teixeira de Freitas
- Uruçuca
Salvador permanece no topo da classe A; gestores explicam
A capital baiana permaneceu na categoria A, segundo o ranking do Ministério do Turismo. A cidade recebeu ano passado 4.272.041 turistas nacionais e 2.855.561 estrangeiros. Os dados do ministério apontam que Salvador em 2017 tinha 13.749 estabelecimentos de hospedagem, onde trabalhavam 4.987 pessoas.
Segundo o secretário de Turismo do município, Claudio Tinoco, os cuidados com a infraestrutura da cidade, o calendário de eventos, além do investimento em novos atrativos e tecnologias contribuíram para a manutenção da cidade na posição mais alta do ranking e vão continuar fomentando o turismo em 2018. “Temos feito muitos investimentos ao longo dos últimos anos, não só com obras de qualificação urbanística, como na orla, mas também infraestrutura de mobilidade e de acesso, tudo isso tem ajudado Salvador a se manter numa boa posição. Também temos trabalhado para melhorar a atenção ao turista e qualificar ainda mais os nossos serviços”, afirma Tinoco.
A expectativa é que o turismo, que já apresentou crescimento no último ano, seja ainda mais estimulado. “Abrimos 2018 com a melhor taxa de ocupação nos hotéis desde 2012. Estamos no caminho certo para melhorar nosso desempenho”.
O Festival Virada Salvador, realizado no Réveillon, atraiu cerca de 430 mil visitantes, que movimentaram R$ 405 milhões na economia da cidade, de acordo com o Ministério do Turismo. A rede hoteleira e outras 50 atividades ligadas ao turismo também se beneficiaram do evento. Um levantamento feito pela Federação Baiana de Hospedagem e Alimentação (FeBHA) apontou que a ocupação média na cidade foi de 96,09% em 31 de dezembro.
Já o Carnaval 2018 deixou Salvador no topo da ocupação hoteleira entre as capitais brasileiras, de acordo com a FeBHA. A capital baiana registrou 96% de ocupação, enquanto o Rio de Janeiro teve 85% e São Paulo 45%. A movimentação financeira da folia foi de R$ 1,8 bilhão. Além de Salvador, Porto Seguro, Cairu (Morro de São Paulo) e Mata de São João também estão na categoria A do ranking.
*Correio





