Pesquisa mostra como drogas desestruturam família de dependentes

Levantamento Nacional de Famílias dos Dependentes Químicos (Lenad Família), feito pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), divulgado na terça-feira (3), mostra que o dependente químico afeta as atividades diárias e o psicológico dos familiares: 58% das famílias com algum usuário de drogas têm afetada a habilidade de trabalhar ou estudar, 29% das pessoas estão pessimistas quanto ao seu futuro imediato e 33% têm medo que seu parente beba ou se drogue até morrer, ou alegam já ter sofrido ameaças do familiar viciado.

A pesquisa apontou ainda que ao menos 28 milhões de pessoas no Brasil têm algum familiar dependente químico. Os dados foram levantados entre junho de 2012 e julho de 2013. Um questionário com 115 perguntas foi respondido por 3.142 famílias de 23 capitais brasileiras. Foi a primeira avaliação em âmbito nacional focada nas famílias de dependentes.

CAPS – Usar o dinheiro do orçamento familiar para bancar a reabilitação de um parente dependente é a realidade de 58% das famílias entrevistadas. Mas essa realidade não é possível para boa parte da população, que, nesses casos, pode procurar pelos Centros de Atenção Psicossociais (Caps Álcool e Drogas), serviço oferecido pelo Ministério da Saúde.

No entanto, segundo o Lenad, metade das famílias ouvidas na pesquisa sequer ouviu falar sobre o Caps. Da outra metade que tem conhecimento a respeito, 54% procuraram pelo serviço. Deste total, 31% relatam que o paciente não gostou do tratamento e 24% disseram que o atendimento foi rápido e eficiente.

'Estratégia ineficiente'

De acordo com Ronaldo Laranjeira, um dos coordenadores da pesquisa, os números sobre o Caps indicam o pouco acesso ao tratamento pelo meio público porque ?falta divulgação por parte do governo e investimento?. Segundo ele, o tratamento oferecido pelos centros deve integrar o paciente e a família, e ?não persistir na política de redução de danos, que é equivocada e mantém o doente na sua doença?, explica o médico, referindo-se à metodologia empregada atualmente pelos centros públicos.

A estratégia parte do princípio que não deve haver uma imediata e obrigatória extinção do uso de drogas e sim um planejamento que reduza os danos aos usuários e aos grupos sociais que convivem com ele. ?Os serviços deveriam estimular a abstinência [que retira totalmente a droga do viciado], mas não quer dizer que seja algo fácil. O governo ainda defende uma política de redução de danos, mas a população afetada é que tem que dar a palavra sobre qual a política correta, no caso, aquela que pare o uso de drogas por parte do usuário?, explica o especialista. (O Globo)