Aos poucos a população de Amargosa tenta voltar à rotina após após um tiroteio que desencadeou em revolta da população, fuga de presos e na morte de uma criança durante uma ação policial, na noite de quarta-feira (16).
Nesta sexta-feira (18), a Secretaria de Educação da cidade informou que as escolas estão abertas desde as 7h para seguir o cronograma normal de aulas. “Nós só não podemos garantir a frequência normal dos alunos, mas as escolas irão funcionar normalmente”, disse uma das funcionárias do órgão.
No comércio, o clima também parece caminhar para a normalidade. Segundo João dos Reis, funcionário de uma das padarias do centro do município, as pessoas já voltam a ocupar as ruas. “Ainda tem aquele clima, com um pouco de tensão, mas hoje abrimos normal às 6h e as pessoas já estão comprando pão, indo para o trabalho cedo, como em dia normal”, comentou. Segundo ele, apesar da abertura das escolas, poucos estudantes foram vistos no início da manhã desta sexta-feira pelas ruas da cidade.
Efetivo policial
O efetivo de policiais militares saiu de 43 para 143 homens no município depois da revolta que ocorreu na noite de quarta. Na ocasião, 30 motos, 18 carros e um ônibus foram incendiados, a delegacia foi invadida e presos foram foram libertados por um grupo que promoveu o caos na cidade.
De acordo com a assessoria da Secretaria de Segurança Pública, o reforço só retornará aos seus postos originais depois que a ordem for restaurada na região, e acrescenta que, após a situação se normalizar, 16 novos policiais militares e seis policiais civis incrementarão o efetivo permanente da cidade.
Na quinta-feira (17), o policial civil suspeito de atirar e matar a criança prestou depoimento na Corregedoria da Polícia Civil, em Salvador. O policial militar que estava com ele durante a ação também foi ouvido pela delegada Andreia Cardoso. Ele nega ter atirado na criança e a Polícia Civil informa que só a perícia vai poder constatar a origem do disparo.
O suspeito informou que perseguia um homicida foragido da Justiça. Ele relatou que, antes, recebeu um telefonema que denunciava a presença do traficante “Bolacha” no bairro Catiara.
Segundo a Polícia Civil, a denúncia recebida informava que o traficante estava desmontando uma motocicleta furtada do Fórum da cidade. Ao se dirigir ao local, a equipe policial teria visto o traficante, de prenome Ricardo, acompanhado de dois homens. O policial informou que ele escondia uma arma sob a camisa e reagiu à abordagem atirando.
O policial afirmou que atirou duas vezes em direção ao suspeito em via pública, negando ter disparado dentro da casa ou no quintal. Afirmou que o traficante entrou na casa e que uma mulher já saía de um dos cômodos com uma criança ferida nas mãos. O policial alega ainda que socorreu a criança.
A versão é contrária aos relatos dos familiares e dos moradores, que negaram ter tido troca de tiro, apontando a ocorrência de apenas três disparos. O pai da criança, Luis Carlos Silva, de 22 anos, disse que uma pessoa entrou na casa e um padeiro disse que essa pessoa era ele. Familiares confirmaram que os policiais prestaram socorro, mas depois de insistência. “Eles só deram socorro e levaram minha filha para o hospital porque a população chegou em cima”, disse o pai.
A assessoria da Polícia Civil informa que o relato do investigador vai ser apurado e que só a perícia vai confirmar a origem do disparo que matou a criança. O enterro aconteceu durante a tarde e foi acompanhado por grande número de pessoas.
Segundo a polícia, após os ataques realizados na cidade, a delegacia local corre risco de desabar. De 14 presos que fugiram, dois já haviam sido recapturados e três se entregaram nesta quinta-feira;
O secretário da Secretaria de Segurança Pública (SSP-BA), Maurício Barbosa, se reuniu com diversas autoridades na tarde desta quinta-feira. Entre elas, a prefeita Karina Silva.
“A verdade vai ter que aparecer. A verdade que os policiais estão dizendo ou a verdade que as pessoas que testemunharam o fato venham a dizer. Tudo leva a crer que, de fato, o que houve, se não foi um acidente, foi imprudência, uma imperícia. Houve o dolo de matar a criança, houve a vontade explícita? Nós temos que apurar isso tudo para que uma injustiça não leve a uma outra”, relatou o secretário.



