“Impressionante. Que país é esse aqui que, para reduzir a criminalidade, tem que reduzir a idade? Nós só queremos fazer adultos criminosos? Que bobagem é essa? Eu sou rigorosamente contra.? (Mário Covas, ex-governador de São Paulo, em 1999)
Sempre teremos Paris.
Paris, não: o Senado. E por ali dificilmente passará a proposta de redução da maioridade penal de 18 para 16 anos, aprovada, esta semana, na Câmara dos Deputados.
É verdade que também nesta semana o Senado aprovou um reajuste salarial absurdo, simplesmente impagável, para os servidores do Poder Judiciário. Em todo o caso…
Debite-se na conta do falso liberal PSDB a aprovação da redução da maioridade penal. Estiveram presentes à sessão 52 dos 53 deputados do partido. E 49 deles votaram pela redução.
A proposta obteve apenas 15 votos a mais do que o necessário para ser aprovada. Portanto, se todos ou quase todos os deputados do PSDB tivessem votado contra, ela não iria adiante.
Por unanimidade, o PSDB do Senado ajudou a aprovar o aumento do Judiciário. O governo perdeu por 62 votos a 0.
Que explicação dá para tudo isso o senador Aécio Neves (MG), presidente do PSDB? Em entrevista a Maria Lima e Patricia Cagni, de O Globo, Aécio foi confrontado pela seguinte pergunta:
– Houve questionamentos em relação à posição do PSDB em votações como fator previdenciário, fim da reeleição, aumento do Judiciário. A bomba não vai estourar lá na frente?
– Nós temos que compreender que o PSDB tem no Congresso uma bancada completamente plural, que tem que ser respeitada em seu espaço de expressão. Mas nós teremos sempre, e isso está no nosso DNA, a responsabilidade fiscal como o indutor, o pilar fundamental da recuperação da economia e dos avanços do país. Agora, não cobrem de nós a condução dessa agenda, que ela é de responsabilidade do governo. O que não é aceitável é o PT, que é responsável por essa gestão calamitosa da economia, que custa hoje à classe trabalhadora um preço altíssimo, não é possível que ele se abstenha de assumir o seu papel, e cobre da oposição esse papel ? respondeu Aécio.
Ou seja: ele respondeu sem enfrentar a questão diretamente.
Como o PSDB terá sempre no seu DNA a responsabilidade fiscal como o indutor se é capaz de dizer ?sim? a um aumento que não poderá ser pago?
Provocado novamente sobre o aumento, Aécio confessou o oportunismo do seu partido:
– Nós votamos, mas é praticamente impossível de ser implementado. Isso aconteceu no momento em que o governo se omitiu.
Quer dizer: o PSDB votou a favor porque sabe que o aumento será vetado por Dilma. E queria ficar bem na foto.
Isso se chama irresponsabilidade.
De sua parte, ouvido pelo site da BBC Brasil, foi Bruno Covas, deputado do PSDB, neto do ex-governador Mário Covas, quem explicou por que o partido votou pela redução da maioridade penal.
Primeiro porque ?jovens de 16 e 17 anos têm condições de saber o que é certo ou errado?. Segundo ?porque o mundo mudou?. Você ?tem uma juventude com mais acesso a informações?.
Ora, quer dizer que há 10 ou 20 anos os jovens não sabiam que matar era crime? Sequestrar era crime? Roubar, também? Traficar, idem? Ofereça outra razão, Bruno!
Foi o que ele fez:
– Nesse momento, votamos ao lado de 90% da população. Em outros momentos, pensando no futuro do país, o partido apoiou medidas impopulares, mas necessárias.
O deputado entregou seu partido. O PSDB votou pela redução porque quase 90% dos brasileiros são favoráveis a ela. Em outros momentos, pensando no futuro do país, o partido apoiou medidas impopulares. Dessa vez, não.
Ficou claro?
Em resumo: o PSDB rendeu-se ao populismo mais descarado. Quanto ao aumento do Judiciário, o fim da reeleição, o fator previdenciário…
Vale qualquer coisa para desgastar o governo. Ele que arque com as consequências de vetar o que acha que deve.
Por Ricardo Noblat



