Em busca do PIB perdido: a receita para a retomada do crescimento industrial no Brasil

A indústria enfrenta o desafio de retomar o crescimento, atraindo investimentos e gerando empregos para fazer a roda da economia brasileira voltar a girar. A lógica parece simples: se tem pessoas para comprar, tem que aumentar a produção, para ter mais produção precisa de mais gente trabalhando, com mais emprego tem mais consumidores com dinheiro para comprar e, aumentando as compras, a indústria precisa produzir mais. Durante quase uma década foi isso que aconteceu. O setor produtivo se desenvolveu impulsionado pela expansão do mercado interno e crescimento da economia. Mas, nos últimos anos, a roda começou a girar ao contrário.Especialistas ouvidos pelo CORREIO concordam em um ponto: para retomar o crescimento industrial, o Brasil precisa reverter fatores como baixa produtividade e o aumento do custo do capital, e contar com medidas que promovam a estabilidade econômica por parte do governo.Para o diretor do Centro de Estudos do Ibmec ? Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais, Carlos Rocca, o aumento da produtividade depende dos investimentos dispararem. ?Mas para retomar os investimentos tem um componente de expectativas, confiança no futuro por parte dos investidores?, diz. ?Além disso, estamos passando por um período de custo de capital bastante elevado e de ausência de perspectiva mais clara com relação ao ajuste do quadro fiscal. Tudo isso interfere em uma decisão de investimento?, completa o diretor.CenárioEm cinco anos, a indústria brasileira perdeu mais de 14% de participação no Produto Interno Bruto (PIB), que representa a soma de todas as riquezas produzidas no país.Em 2015, a indústria já fechou 46 mil postos de trabalho segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) divulgada pelo IBGE, na terça. Somado ao aumento do desemprego, a queda na renda das famílias, a baixa confiança dos empresários e o aumento do custo do capital também são fatores que pesam sobre a produção industrial.Além disso, a alta do dólar e o aumento da Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP) do BNDES dificultam os investimentos em inovação para aumentar a competitividade da indústria.?É preciso que as variáveis macroeconômicas convirjam para a estabilidade, o cambio se equilibre, tenha uma dinâmica ao longo do tempo, um cenário em que não haja grandes flutuações e uma taxa de juros baixa?, diz o assessor técnico da Superintendência de Desenvolvimento Industrial da Federação das Indústrias da Bahia (Fieb), Mauricio West Pedrão, que ressalta, ainda, questões como a produtividade da indústria.Nesta segunda reportagem da série especial sobre a indústria no Brasil, especialistas apontam soluções para mudar as perspectivas do setor em curto e médio prazos. Falam, também, sobre fontes de financiamento que podem alavancar os investimentos em tecnologia e inovação.

Dólar e real estáveis podem atrair mais recursos para setorO professor da Escola Brasileira de Economia e Finanças da Fundação Getulio Vargas (FGV), Sergio Werlang, acredita que a desvalorização da moeda brasileira seja parte da solução para a retomada do crescimento industrial. ?A nossa situação macroeconômica está mais frágil e essa é uma maneira natural de conseguir reequilibrar as contas externas, atrair mais exportação, tornar mais caras as importações e tornar o país mais favorável às pessoas que querem investir no país?, diz.

O assessor técnico da Federação das Indústrias do Estado da Bahia – Fieb, Mauricio West Pedrão, aponta que a variação cambial, em geral, é desfavorável à indústria e isso precisa mudar. ?A flutuação gera incerteza e faz com que os investimentos sejam adiados. O dólar interfere na modernização do parque industrial e faz com que a gente fique para trás na corrida para a inovação. O bom é a previsibilidade, os agentes econômicos gostam de prever tudo?, afirma.

Já para o diretor do Centro de Estudos do Ibmec ? Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais, Carlos Rocca, com o dólar a R$ 3,50, boa parte dos problemas da indústria estaria resolvida. ?Seja para competir com importações, seja para competir no mercado internacional com exportações, a desvalorização cambial é favorável. Mas isso não resolve o problema de crescimento e produtividade em médio prazo. É necessário investimento em tecnologia e qualidade da mão de obra?.

Investimento em educação  e inovação são essenciaisO presidente da Fieb, Ricardo Alban, indica a melhora na qualidade da educação como fator primordial para o aumento da produtividade da indústria brasileira. ?A Bahia, assim como o Brasil, verifica uma perda expressiva de competitividade industrial frente a concorrência internacional.

São muitas as causas, mas destacamos a infraestrutura deficiente e a necessidade de melhor qualificação da mão de obra?, diz. ?Quanto ao último quesito, o Sistema Fieb tem dado sua contribuição na formação e qualificação de mão de obra para a indústria (com seus centros tecnológicos – Cimatec, Programa de Interiorização, etc.), e o Estado também tem mostrado preocupação com a melhora da qualidade da educação pública, com ênfase no ensino básico e técnico?, completa.

A economista da Confederação Nacional da Indústria ? CNI Flávia Ferraz também destaca a necessidade de qualificação da mão de obra. ?É essencial a disseminação e a melhora na qualidade do ensino para poder qualificar nossos funcionários e aumentar a produtividade. Além disso, o investimento em infraestrutura, em tecnologia e inovação é fator essencial para a melhora da produtividade que está praticamente estagnada nos últimos 10 anos?.

De acordo com Mauricio Pedrão (da Fieb), a queda da produtividade é um fator que tem tirado competitividade da indústria brasileira. ?A educação está diretamente ligada a essa questão. O Pronatec tem ajudado, mas leva um tempo de maturação. E a pressão para que a produtividade da indústria aumente é imediata. Somente em médio prazo isso seria possível?.

Para Carlos Rocca, não dá para resolver a qualidade da mão de obra em curto prazo. ?Resolver a questão da educação leva muito tempo, porque envolve não só aumentar a qualidade dos cursos existentes, mas discutir o seu conteúdo, em que medida essa formação das pessoas gera habilidades que possam efetivamente se integrar no processo produtivo?, analisa.

Competitividade industrial depende de eficiência logísticaQuando o assunto é infraestrutura, Mauricio Pedrão afirma que o Brasil perde muito em competitividade por não oferecer boas condições de transportes, comunicação e fornecimento de energia. ?Precisamos tornar nossos portos competitivos pra que a nossa eficiência industrial apareça. Somos muito competitivos da porta para dentro da fábrica, mas quando entra o fator logístico, ao sair da fábrica, a gente perde competitividade?.

Ele acrescenta ainda que, por ser um estado muito grande, a Bahia precisa atrair indústrias para cidades médias com potencial de crescimento.

O economista da Kaduna Consultoria Roberto Giannetti da Fonseca afirma que o Brasil está ficando atrasado em relação a outros países que são seus principais concorrentes. ?Há anos temos debatido sobre a urgência de reformas tributária, trabalhista, além de planos de investimento em logística e infraestrutura através de um amplo regime de concessões à iniciativa privada. Mas a verdade é que muito pouco tem sido feito?.(Correio)