
Alfabetizada tardiamente, aos 11 anos, Gabriele Souza Costa, hoje com 21 anos, conquistou uma vaga no curso de Agronomia da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) por meio do Sistema de Seleção Unificada 2026. A jovem é egressa do Colégio Estadual de Tempo Integral de Biritinga, localizado no município de Biritinga, no Território do Sisal, e celebra o ingresso no ensino superior como uma virada decisiva em sua trajetória de vida.
A aprovação é resultado de uma caminhada marcada por obstáculos no processo inicial de aprendizagem, interrupção temporária dos estudos devido à maternidade e dificuldades financeiras. Mesmo assim, a estudante manteve o foco na educação como caminho para ampliar oportunidades e transformar sua realidade social.
O incentivo familiar teve papel central nesse percurso, especialmente o apoio da avó Maria das Graças de Souza, conhecida como dona Gracinha, de 72 anos. Sem ter frequentado a escola, ela sempre reforçou junto aos netos a importância dos estudos. “Eu sempre incentivei: ‘olha, minha filha, estude para Deus ajudar a conseguir um serviço melhor. Estude, porque sem os estudos a gente não é nada’”, relatou.
Na escola, o suporte dos professores e da gestão foi apontado como determinante. “A escola teve um papel muito significativo na minha trajetória e os professores foram meus maiores incentivadores”, afirmou Gabriele. Ela destacou, em especial, o professor Mateus Tavares, de Sociologia, que a acolheu quando retornou às aulas após a licença-maternidade. Segundo a estudante, a preparação para o ingresso na universidade foi feita de forma autônoma. “Eu dedicava cerca de duas horas por dia aos estudos pelo celular, usando os conteúdos da escola, porque não tinha condições de pagar um cursinho”, explicou.
Para o professor Mateus Tavares, a conquista tem um significado especial. “A história de vida dela, por si só, revela o valor dessa vitória. Uma menina que foi alfabetizada aos 11 anos torna esta conquista ainda mais valorosa”, avaliou. A professora de Língua Portuguesa Joanne de Jesus também destacou o perfil da aluna. “Uma coisa que sempre me chamou atenção foi o gosto pela leitura, o que me levou a incentivá-la ainda mais”, disse.
Já o diretor da unidade, Mário Tierres, afirmou que a aprovação era esperada. “Diria que foi uma grande alegria. Já era esperado esse sucesso pela dedicação, empenho e liderança de Gabriele em sala de aula”, ressaltou.
Mãe solo do pequeno Miguel, de um ano e dez meses, Gabriele aponta a mudança de vida como principal motivação para seguir estudando. “A única saída para transformar a minha realidade é estudar e sonhar com um futuro digno, trabalhar na área, fazer um doutorado, construir minha casa própria e proporcionar uma vida melhor ao meu filho”, afirmou. Durante a graduação, ela contará com o apoio da família e com o acesso a uma creche para acolher a criança.
Desempregada e dependente de apoio familiar e de programas sociais, após experiências de trabalho informal, a estudante diz que já se sente vencedora. “Estou buscando o meu sonho de melhorar de vida, principalmente a do meu filho, e sou grata por todo apoio que recebo da minha família e da escola”, concluiu.


