Em busca de valorização dos cabelos crespos e cacheados, negras e negros se unem para reforçar identidade: ‘A estética é um ato político’

Quem olha o cabelo de Vanessa Teixeira, de 27 anos, não imagina o que ela teve que passar antes de ter segurança para ostentar a cabeleira crespa no alto. Durante anos, a publicitária alisou o cabelo para se sentir parte de um padrão estético que não contemplava pessoas com a aparência dela.

A história de Vanessa não é um caso isolado. Só em Salvador, mais de 96 mil pessoas, entre homens e mulheres, fazem parte de um grupo no Facebook, onde crespos e cacheados se unem para trocar dicas e apoio, na tentativa de resgatar a identidade do cabelo natural.

O processo de transição capilar, que consiste em tratar os fios para retirar as químicas de transformação, tem recebido cada vez mais adeptos, em sua maioria pessoas negras.

Atenta a esses debates e trocas na internet, Naira Gomes, de 30 anos, percebeu a necessidade de criar um movimento que levasse as pessoas a manifestarem o orgulho de seus cabelos crespos e cacheados, nas ruas. Assim, ela juntou as amigas e nasceu a Marcha do Empoderamento Crespo de Salvador, em 2015.

Se hoje o resgate da identidade negra, a partir da afirmação estética, tem começado a ganhar amplitude, anos atrás quem desejava passar pelo processo de transição não tinha o mesmo volume de informações que é possível encontrar atualmente.

A jornalista Lorena Ifé, que passou pela transição em 2006, por exemplo, não encontrou pessoas com quem trocar conhecimentos. Anos depois, ela mesma decidiu criar a Encrespando: um projeto de identidade, para falar sobre afirmação da negritude pela estética.

Para passar adiante tudo o que aprendeu e aprende, ela faz palestras onde fala sobre a transição capilar e a importância de tornar o assunto natural. Para ela, essas discussões possibilitam até mesmo que as marcas de cosméticos se atentem para o público negro como consumidor, mas de produtos que valorizam o fenótipo racial.

“Meu processo de identificação e reformulação foi aos poucos. Gradativamente, fui vendo beleza e força em meus traços e a cada ícone representativo que eu via, ia acumulando mais força, até que senti falta de ter o conhecimento real de uma parte de minha estética que me foi privada desde cedo, o meu cabelo”, ele descreve.

Matheus conta que hoje ele enxerga a si próprio como uma das figuras que o ajudaram a pensar diferentes e mudar. “Vejo a minha estética como um ato de resistência em certos locais. Uma luz no fim do túnel pra quem olha em volta e não vê seus iguais exaltando sua estética”, ponderou.

Construção da identidade

Segundo a historiadora Maria Clara Guedes, criar em si uma figura de inspiração para o meio em que vive é fundamental dentro de uma determinada classe da sociedade que é carente de representatividade.

“Existe o equívoco de que o belo é apenas questão de gosto, porém o que é considerado bonito ou não vem de construção social. O padrão do que é belo é difundido há anos e foi construído e incutido no pensamento das pessoas por décadas a fio. Esse padrão machuca quem não se encaixa nele e esse valor é repassado. Lutar contra isso é lutar para ter uma voz e o direito de ser visto”, explicou.

Maria Clara destaca ainda que o movimento de reidentificação bate de frente a uma cultura onde as pessoas procuram minimizar seus traços e adquirir outros para serem parte de um todo.

“O traço mais afetado acaba sendo o cabelo porque é o que impacta. Ser racista é tido como feio, então a cor da pele as pessoas conseguem disfarçar que gostam, elas fingem que aceitam. Mas o cabelo não, então elas disfarçam isso como se fosse questão de gosto. Você pode ser preto, desde que seu cabelo não esteja pra cima, não marque presença e diga: ‘Olha, estou aqui! Eu resisto!'”.

*G1