Brasileira impõe quarentena a si mesma após voltar da Itália

Pelas próximas duas semanas, a designer e empresária Marina Chevrand, de 38 anos, planeja ficar em quarentena em um apartamento em São Paulo, junto com a esposa. A decisão foi tomada pela própria brasileira, que retornou da Itália, na manhã de segunda-feira (09/03). “Acreditamos que seja uma medida importante para este momento”, diz, por telefone, à BBC News Brasil.

Há quatro anos, ela mora em Milão, a capital da Lombardia, região que enfrenta uma explosão de casos do novo coronavírus nas últimas semanas.

Na Itália, foram registrados, até a terça-feira (10), 10,1 mil casos do Sars-Cov-2, como é chamado oficialmente o vírus — foram 631 mortes. Na segunda-feira, as autoridades decretaram quarentena em todo o país. É o lugar com mais registros fora da China, onde o vírus surgiu.

Marina e a esposa, a empresária Calu Tegagni, deixaram a Itália no domingo, sem prazo para retornar. A decisão de sair do país ocorreu logo que perceberam que o surto do novo coronavírus atingia níveis cada vez maiores.

“A nossa vida mudou completamente. A nossa empresa (no ramo de marketing para eventos) estava passando por um bom momento. Mas tudo mudou de repente”, relata.

Apesar de ter vindo de uma região que enfrenta uma explosão de casos do novo coronavírus, Marina afirma que não tem nenhum sintoma do vírus — como febre ou algum problema respiratório.

“Estamos muito bem. Mas a quarentena é uma forma de precaução, até porque o vírus pode ficar incubado por alguns dias”, diz a designer.

Estudos apontam que os sintomas do novo coronavírus costumam aparecer, em média, a partir de cinco dias desde a infecção. Em alguns casos, conforme levantamentos, pode levar quase duas semanas para que os primeiros sinais da covid-19, a doença causada pelo vírus, comecem a surgir.

No Brasil há, segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde na quarta-feira, 37 casos do novo coronavírus: em São Paulo (19), Rio de Janeiro (10), Bahia (2), Espírito Santo (1), Minas Gerais (1), Alagoas (1), Distrito Federal (1) e Rio Grande do Sul (2). Há 876 casos sob suspeita e 880 foram descartados.

Da Itália para São Paulo

Marina se mudou com a esposa para Milão em 2016. Em busca de uma nova vida, o casal abriu uma empresa na área de fotografia e audiovisual. As duas não tinham planos de morar novamente no Brasil. “Queríamos ter uma experiência no exterior. Como o pai da minha esposa é italiano, optamos pela Itália”, relata Marina.

Em Milão, elas viram a empresa crescer e participar de grandes eventos de moda e outras atividades culturais. “Para este ano, tínhamos eventos para o Dia das Mulheres, que foram cancelados. Tínhamos trabalhos grandes e importantes em Milão e todos foram, aos poucos, sendo cancelados”, comenta a empresária.

O motivo para os cancelamentos foi um fato ao qual Marina não deu tanta importância quando leu as primeiras notícias: os casos de coronavírus na Itália.

“As coisas mudaram de repente. Primeiro, não podia mais ir para a academia. Depois, fecharam cinemas. Em seguida, os museus. Foi uma situação dia após dia e ficamos desesperadas”, diz.

Marina e a esposa, que tinham se mudado para a casa dos sonhos em Milão havia poucos meses. “Acreditávamos que a situação melhoraria. Até que percebemos que os números dos casos do coronavírus não diminuíam.”

Ela, a esposa e todos os brasileiros que vivem na região da Lombardia começaram a se desesperar. “Havia muitas coisas fechadas. As pessoas não tinham como pagar o aluguel, porque muitos trabalhos foram suspensos. Muita gente foi demitida. Em Milão, que é um mercado bilionário para a cultura, não houve mais nenhum evento”, relata.

Há uma semana, enquanto se preocupava com o seu futuro em meio ao avanço dos casos de coronavírus, ela foi chamada para ser diretora criativa em uma empresa de São Paulo, na qual havia trabalhado cinco anos atrás. Sem expectativas na Itália e com o medo de não ter condições para permanecer no país europeu, não pensou duas vezes. “Acho que recebi um chamado do destino”, comenta.

Fonte: G1