Quase metade dos brasileiros trabalha mais para conseguir pagar as contas, aponta pesquisa

Levantamento da Anbima e do Datafolha mostra que dificuldades financeiras afetam o sono, a saúde mental e a rotina de milhões de brasileiros.

Foto: Paulo Pinto / Agência Brasil

Uma pesquisa divulgada pela Folha de S.Paulo mostra que 47% dos brasileiros convivem com alto nível de estresse por causa de dinheiro, despesas e contas, fazendo com que as pessoas trabalhem mais ou dividam o dia entre trabalho formal e informal. Os dados são da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), em parceria com o Datafolha.

Segundo a pesquisa, a preocupação com o dinheiro prejudica o sono de 37% dos entrevistados. Além disso, 29% afirmam que as questões financeiras geram conflitos dentro de casa, enquanto 49% dizem trabalhar em excesso para conseguir pagar as contas.

O superintendente de Educação da Anbima, Marcelo Billi, afirma que a combinação entre endividamento e dificuldade para poupar ou investir ajuda a explicar os impactos negativos na saúde mental.

“O problema com dinheiro contamina as outras dimensões da vida. Quando se está endividado, a capacidade cognitiva fica comprometida e isso impacta na produtividade e na capacidade de resolver os problemas”, afirma.

Segundo Marcelo Billi, outro efeito do endividamento é a dificuldade de conversar sobre dinheiro com familiares e amigos. De acordo com ele, muitas pessoas acabam ignorando a situação, o que contribui para o agravamento de problemas que poderiam ser resolvidos mais cedo.

A pesquisa também mostra que 53% das pessoas com alto estresse financeiro são mulheres. Entre os mais afetados pelas dificuldades com dinheiro, 37% têm entre 45 e 64 anos.

A bióloga Leonir de Souza convive com dívidas há mais de dez anos. Atualmente, ela possui pendências em três cartões de crédito e quatro empréstimos consignados, que comprometem quase metade do salário de professora da Universidade Federal de Rondônia (Unir).

Leonir conta que os problemas financeiros começaram após o divórcio, quando passou a arcar sozinha com as despesas da casa e dos três filhos. O primeiro empréstimo consignado foi utilizado para evitar que o imóvel onde morava fosse a leilão.

Em 2019, ela iniciou o doutorado e precisou se mudar de Porto Velho para o interior do Paraná. Para custear a mudança, contraiu novas dívidas. Quando retornou a Rondônia, acumulava oito empréstimos consignados e oito empréstimos pessoais, somando quase R$ 300 mil em débitos.

Segundo a professora, o impacto das dívidas na saúde mental é percebido principalmente pela impossibilidade de aproveitar momentos de lazer.

“Eu gostaria de comprar mais livros, de viajar, mas não tenho descanso real. Quando entro de férias, fico pensando que vou receber meu 13º e meu salário de férias, e vou usar para pagar dívidas”, afirma.

Para tentar reorganizar a vida financeira, Leonir afirma que deixou de usar cartão de crédito e passou a registrar todos os gastos em uma planilha. O objetivo é quitar as dívidas e chegar à terceira idade com mais tranquilidade financeira.

“Envelhecer exige de recurso financeiro para cuidar da saúde e ter uma vida saudável. Quando a gente é jovem, não pensa nisso”, afirma.

Marcelo Billi destaca que o primeiro passo para reduzir os impactos das dívidas na saúde mental é reconhecer a situação financeira.

“O começo é entender o tamanho real do problema e as condições de equacionar as dívidas”, afirma.

De acordo com a pesquisa da Anbima e do Datafolha, 29% da população brasileira tinha dívidas em atraso em 2025.

Segundo o superintendente da Anbima, programas de renegociação, como o Desenrola Brasil, podem contribuir para reduzir o estresse financeiro. No entanto, ele ressalta que essas iniciativas precisam ser acompanhadas por ações de educação financeira.

“A solução não é acabar com problemas emergenciais, mas condicionar as pessoas a não precisarem mais deles”, diz Billi.