Matarandiba, na Ilha de Itaparica, dribla crise com uso de moeda própria

Matarandiba, na Ilha de Itaparica, dribla crise com uso de moeda própria
Imagem: Divulgação

Criatividade e inovação, essas palavras são sinônimos da pequena Vila de Matarandiba, localizada no município de Vera Cruz. Calmo e simples, o lugarejo encanta pelas suas belezas naturais e por sua economia própria.

Já ouviu falar da Concha? Se pensou que era búzio encontrado no mar, errou. Concha é o nome dado à moeda local de Matarandiba, criada pela Associação Comunitária (ASCOMA), com apoio financeiro da empresa Dow Brasil e a ajuda técnica da Universidade Federal da Bahia (UFBA), a fim de fomentar a economia da região.

A inserção da moeda na Vila surgiu através de diversos estudos, como relata o prefeito do município de Vera Cruz, Marcus Vinícius Marques (MDB-BA).  “A Concha, enquanto moeda, foi introduzida através de um estudo bem sério junto com a Universidade Federal da Bahia e a Associação de Moradores e chegou-se à conclusão de introduzir uma moeda própria, pois ela tem benefícios para o uso no comércio”, disse.

A iniciativa econômica chegou ao vilarejo em abril de 2008, por meio da economia solidária e junto com a participação dos moradores; criou-se o Banco Comunitário, como cita a agente de crédito, Flávia Lima. “O Banco Ilhamar foi o segundo banco comunitário da Bahia e que também tem uma moeda social circulante. A Concha começou a circular na nossa comunidade em 2008. Também com a participação da comunidade de Matarandiba”, revelou.

De acordo com informações do site da Secretaria Estadual do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte (SETRE), o primeiro município a fundar o próprio banco social foi Simões Filho, localizado a cerca de 27 km de Salvador, o banco intitulado de ‘Banco Ecoluzia’ surgiu em 2005.

Já o Banco Ilhamar, surgiu através de uma doação realizada pela empresa Dow Brasil, parceira da instituição e da comunidade. Na oportunidade, a organização doou um montante de aproximadamente R$ 5.000,00, para movimentar a economia. Conforme a Coordenadora Técnica de Projetos da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Elenita Souza, a financeira estimula a movimentação econômica de Matarandiba. “O objetivo do Banco Comunitário é promover o desenvolvimento local, através do apoio à rede de produção e consumo e a formação de empreendimentos de economia solidária, criando oportunidades de trabalho e geração de renda”, afirmou.

O funcionamento do Banco Comunitário se dá através de linhas de créditos, que ofertam financiamento aos empreendimentos regionais e disponibilizam empréstimos por meio da Concha ou do Real. Ainda de acordo com Elenita, “o Banco Ilhamar atua com três linhas linhas de crédito: produção, reforma e consumo.” Ainda segundo ela, para cada moeda social que circula na comunidade, existe um correspondente em real reservado na conta do Banco Comunitário.

Toda movimentação financeira ocorre através da Concha que tornou-se fonte de renda e  câmbio de troca para os habitantes de Matarandiba. Segundo Flávia, que é moradora da região há 12 anos e também é estudante de administração, a moeda serve para empréstimos bancários ou para descontos em produtos no comércio local.

“Os comerciantes que são cadastrados para a aceitação da Concha  ofertam aos seus clientes 1% de desconto na utilização da moeda no seu estabelecimento.  Em contrapartida seus clientes vêm ao banco solicitar empréstimos e podem realizar compras ou pagamento de débito com a moeda social, fazendo com que a inadimplência diminua no comércio local, de modo geral”, contou.

A agente de crédito do Banco Ilhamar ainda explica o significado do nome da moeda social. “O nome Concha se deu por ser o marisco que sustenta a maioria da nossa comunidade, que é composta por pescadores e marisqueiras, que vivem do que a maré lhes oferecem”, afirmou.

O gerente de Relações Institucionais da Dow Brasil, Alexandre Amissi, também fala sobre o nome da moeda. “Concha remete a essa situação econômica forte lá em Matarandiba, que é o marisco, é uma forma de homenagear as marisqueiras”, contou.

A Concha, entretanto, não deve ser expandida por toda a  Ilha de Vera Cruz, conforme confessou o prefeito Marcus Vinícius, em conversa com a reportagem do Tribuna da Bahia. De acordo com ele, a moeda ficará restrita apenas a comunidade de Matarandiba, composta por aproximadamente 800 moradores.

O emedebista, no entanto, revela que vem estimulando o turismo doméstico para região em parceria com a ASCOMA.  “A prefeitura incentiva o turismo interno entre as ilhas […]. Divulgamos para que as pessoas cheguem e troquem o seu real pela Concha para incentivar o turismo doméstico. Somos um parceiro da região”, disse Marcus Vinícius.

Banco Comunitário

A financeira comunitária oferta aos moradores acesso ao microcrédito e também possibilita o desenvolvimento social da comunidade através dos empreendimentos. Dessa forma, o banco desempenha a função comunitária, como cita Elenita Souza, “o banco cumpre sua função de fomentar o desenvolvimento local a partir do momento que incentiva a comunidade a criar empreendimentos que supram as suas próprias necessidades. Sejam eles empreendimentos individuais ou coletivos e fundados nos princípios da economia solidária, como a Padaria Comunitária Sonho Real, o grupo de produção de mel e a rádio comunitária A Voz da Terra”, citou.

Fazendo jus a comunidade de Matarandiba, o Banco Comunitário foi devidamente premiado pela Fundação Banco do Brasil, em 2017. Na oportunidade, a financeira regional recebeu o prêmio e reconhecimento de Tecnologia Social.

Em entrevista a reportagem, a Coordenadora Técnica de Projetos da UFBA, revela uma novidade da financeira, que é o pagamento eletrônico (e-dinheiro). “O meio de pagamento eletrônico (e-dinheiro) consiste na utilização da moeda social eletrônica da Rede Brasileira de Bancos Comunitários pelo BCD Ilhamar. Trata-se  de uma plataforma de Moeda Social Eletrônica e arranjo de pagamentos desenvolvida pelos bancos comunitários do Brasil, com o objetivo de promover e aumentar a inclusão financeira para pessoas de todas as classes, com ênfase no público de baixa renda. O dinheiro que circula através do aplicativo é “social” porque o lucro com as transações são direcionados para investimento na própria comunidade em que é utilizado”, contou.

“Através dessa plataforma a comunidade de Matarandiba pode fazer pagamentos de contas (energia, fatura, etc.) diretamente no Banco Comunitário Ilhamar, sem precisar sair da comunidade a cada transação realizada um uma taxa é paga ao banco comunitário. Esse valor é revertido para o fundo de empréstimo do banco”, completou.

Economia Solidária

A comunidade de Matarandiba utiliza-se da economia solidária para realizar a administração das moedas. A ação é um conjunto de atividades econômicas, referente a produção; distribuição; consumo; poupança e crédito organizadas sob uma forma de autogestão. Segundo Flávia Lima, neste modelo econômico não existe patrão, a administração do empreendimento é realizada pelos participantes, objetivando o conhecimento e aprendizado dos indivíduos.

O Banco Ilhamar segue este modelo financeiro e dispõe de linhas de crédito aos moradores, dentre elas estão o Cred Jovem; o consumo; reforma e produção. Cada uma dessas linhas, tem um valor mínimo para retirar em empréstimo. Confira:

Cred Jovem  mínimo 50,00 máximo 300,00  parcelado em 4x com juros de 0,5% ao mês.

Consumo mínimo 200,00 máximo 300,00 parcelado em 4x com juros de 2% ao mês.

Reforma mínimo 400,00 máximo 800,00 parcelado em 6x com juros de 3% ao mês.

Produção  e serviço mínimo 400,00 máximo 800,00 parcelado em 6x com juros de 3% ao mês.

Para realizar o empréstimo, no entanto, é necessário passar por uma avaliação do Comitê de Avaliação de Crédito (CAC), após a análise, o recurso é liberado, em real ou na moeda social.

Ao transferir a Concha para o Real, o Banco Comunitário cobra uma taxa administrativa. “Essa taxa vai de 1 a 3% sobre o valor de moedas trocadas. A variação ocorre porque existe uma regra entre o Banco Ilhamar e os comerciantes, à saber: se o comerciante aplicar taxas de desconto nos produtos comprados pelos moradores de Matarandiba, o Banco Ilhamar não cobra essa taxa administrativa”, revelou a Coordenadora da UFBA, Elenita.

A regra é válida para comerciantes parceiros da comunidade e comerciantes externos.

Os clientes que adquirem o empréstimo através da Concha têm um prazo de 45 dias para começar a pagar. A solicitação deve ser feita no Banco Ilhamar que é intermediada pela Associação dos Moradores.

Obras

Matarandiba segue sendo ampliada e modernizada pela prefeitura de Vera Cruz. De acordo com o prefeito Marcus Vinícius, nos últimos tempos, a gestão municipal realizou reformas de novas escolas e instalou complexos esportivos de lazer.

Em entrevista ao Tribuna da Bahia Online, o prefeito contou que a gestão municipal também realizou o calçamento e pavimentações das ruas. Além de falar sobre a parceria entre o município e a empresa Dow Brasil. “Em parceira com a Dow Brasil, estamos realizando um acesso para Matarandiba […], a empresa também vem expandindo a malha viária local”, ressaltou o prefeito.

Fonte: Tribuna da Bahia