Vacina brasileira inicia em Salvador testes com humanos

Cerimônia reuniu no Senai Cimatec ministros e 90 voluntários, que receberam dose experimental do imunizante

Wenderson Nascimento Souza foi o primeiro voluntário a receber a vacina brasileira contra a Covid-19 em teste no país – Foto: Rafael Martins/ Ag. A TARDE

A primeira vacina brasileira para a Covid-19, a RNA MCTI CIMATEC HDT, iniciou nesta quinta-feira, 13,  as fases de testes para aplicação em seres humanos. Em cerimônia realizada no Senai Cimatec,  em Piatã,  90 voluntários, com idades entre 18 e 55 anos, receberam uma dose experimental do imunizante.

O desenvolvimento da tecnologia é feito pelos pesquisadores do Instituto SENAI de Inovação de Sistemas Avançados de Saúde em parceria com a HDT Bio Corp, empresa estadunidense de biotecnologia sem fins lucrativos, e com a RedeVírus MCTI. O projeto conta com financiamento do Governo Federal, por meio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações.

De acordo com o diretor de operação do Senai Cimatec, Luís Alberto Mascarenhas, os voluntários receberão as doses em um período de noventa dias, quando serão acompanhados e os resultados clínicos da aplicação analisados.

“A gente vai aplicar doses nestes noventa voluntários no período de noventa dias. Após isso, obviamente, iremos avaliar todos os resultados da pesquisa clínica para avançar para a segunda fase, que a gente já aumenta o espectro para quatrocentos voluntários  e aí depois avançar para terceira fase,  uma fase de abrangência maior.”, explicou Mascarenhas.

Médico infectologista e professor titular do Senai Cimatec, Roberto Badaró afirmou que o objetivo principal desta fase é avaliar a segurança e a reatogenicidade do novo imunizante – ou seja, a capacidade de a vacina gerar reação adversa  local ou sistêmica no organismo.

“Serão testadas três diferentes concentrações de dose, verificando-se qual delas se mostrará mais promissora na produção de resposta imune humoral e celular contra o vírus SARS-CoV-2. Além disso, a expectativa é que essa vacina possa proteger contra todas as variantes da Covid-19 existentes até o momento”, explicou o médico

Badaró explicou que a tecnologia utilizada no imunizante nacional é ‘uma grande oportunidade para a produção de outras vacinas não só para o coronavírus’. Essa tecnologia, segundo o médico, poderá atender a produção nacional de vacinas para a prevenção de doenças como dengue, zika, febre amarela,podendo ser adaptada também para o câncer. “O impacto na morbidade das doenças que avassalam a humanidade vai ser muito grande, a ciência dá um salto muito grande para criar medicamentos específicos para as pessoas utilizarem”, destacou.

O governo federal destacou o ministro da Ciência, Tecnologia e Inovações, Marcos Pontes, e o ministro da Cidadania, João Roma, como representantes do executivo na solenidade.

Para  João Roma, o desenvolvimento da vacina em solo baiano é motivo de orgulho e superação. “É sempre bom a gente poder mostrar para a sociedade de uma maneira geral a que grau de desenvolvimento, a que grau de avanço tecnológico nós conseguimos atingir em solo baiano. No nordeste que muitas vezes é vítima do estigma ou do preconceito de outras regiões do Brasil, achando que aqui não se pode desenvolver determinadas tecnologias”.

“O Nordeste pode sim mostrar que não é problema para o Brasil, Mas sim solução. E hoje o que nós estamos vendo é justamente isso. partido do nordeste brasileiro, da nossa Bahia, solução para o futuro não só do Brasil, como para toda a nossa sociedade e desafios que são cada vez mais globais e coletivos”, endossou Roma

De acordo com o ministro Marcos Pontes,  o desenvolvimento do imunizante mostra que o país está no caminho da auto-suficiência farmacêutica.

“Imagina que nós tenhamos que comprar as vacinas o tempo todo em outros países, imagine uma outra pandemia  e eles não têm como vender para gente. Portanto, é imprescindível que o Brasil tenha soberania, que tenha auto-suficiência no desenvolvimento tecnologias farmacêuticas nacionais”, destacou.

Etapas

Os estudos da vacina para a Covid-19 incluem ainda as fases II e III, até que o imunizante seja aprovado para registro e produção no Brasil. Uma vez comprovada a segurança na fase I, após as análises estatísticas dos dados, terá início a fase II, com a participação de 400 indivíduos.

Da mesma forma, o início da fase III dependerá dos resultados da fase anterior. Para a fase III está previsto o recrutamento de 3 mil  a 5 mil participantes. Ao todo, o período de testes vai durar cerca de um ano

O imunizante 

A vacina RNA MCTI CIMATEC HDT é composta por duas plataformas tecnológicas: o replicon de RNA (substância ativa) e uma formulação lipídica (LION). Por meio dessas duas plataformas inéditas e inovadoras, repRNA e LION, espera-se que a vacina seja capaz de gerar uma imunização robusta e duradoura com uma dose menor de imunizante. A repRNA (replicon de RNA) é o primeiro imunizante que utiliza essa tecnologia a ter uma fase de estudos realizada no Brasil. O replicon de RNA é capaz de se autoamplificar e ser reconhecido pelo organismo como um RNA mensageiro, que, por sua vez, ensina o corpo humano a produzir respostas contra o vírus (anticorpos).

O imunizante integra um plano de desenvolvimento global que está sendo realizado no Brasil, Estados Unidos e Índia, por meio da parceria entre as três instituições: SENAI CIMATEC, HDT Bio Corp e Gennova Biopharmaceuticals (Índia). O estudo de Fase I custará R$ 6 milhões.

Fonte: A Tarde